O que fazer, Trabalhismo?

Matheus Bizzo – membro do Diretório Nacional do PDT.

“a outra democracia é a democracia socialista, a do trabalhador. a esta me filio” – Getúlio Vargas

Vivemos uma nova quadra histórica. O mundo atravessa um processo acelerado de reorganização das forças econômicas, políticas e militares, no qual o imperialismo norte-americano, sob a liderança de Donald Trump, procura reafirmar sua posição de poder sobre a América Latina e sobre os países que ocupam posições estratégicas na disputa internacional. O Brasil, pela dimensão de seu território, pela população, pela capacidade industrial, pela agricultura, pela biodiversidade, pela Amazônia, pelos recursos energéticos e minerais críticos e pela sua posição geopolítica, não é um país qualquer nessa disputa. É uma peça-chave.

A política de Trump combina protecionismo, sanções, tarifas comerciais e ingerência política com uma visão explícita de defesa dos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Em 2026, essa ofensiva alcançou também o processo político brasileiro, com acusações e evidências de tentativas de interferência norte-americana no ambiente eleitoral.

Nesse sentido, Flávio Bolsonaro se apresenta como lacaio dos interesses dos Estados Unidos. Mancomunado com que há de pior na elite brasileira, defende uma agenda econômica que está em vigor na falida e miserável Argentina: congelamento de salários, retirada de direitos e desindustrialização. o povo argentino, que produz a melhor carne do mundo, está comendo carne de jumento. esse será o resultado se Flávio Bolsonaro for eleito.

E é justamente por isso que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva assume uma dimensão que ultrapassa a disputa eleitoral ordinária.

Eleger Lula é, neste momento, uma necessidade para impedir que o Brasil seja colocado novamente sob uma política de submissão aos interesses estratégicos de Washington e para preservar uma orientação externa baseada na autonomia, no multilateralismo e na capacidade brasileira de dialogar com diferentes polos de poder.

O governo Lula precisa avançar. Precisa corrigir rumos, melhorar suas entregas e, sobretudo, fazer com que os frutos do desenvolvimento sejam percebidos de maneira mais concreta pelas classes C e D. Não basta que os grandes indicadores econômicos apresentem melhora; é necessário que o trabalhador sinta essa melhora no supermercado, no aluguel, no transporte, na conta de luz, no acesso à casa própria, no emprego, no salário e na possibilidade de ascender socialmente.

Uma agenda nacional-popular não pode ser apenas uma agenda de proteção social. Ela precisa ser também uma agenda de ascensão social.

O Trabalhismo deve defender, portanto, um projeto que combine soberania nacional, desenvolvimento econômico, industrialização, valorização do trabalho, fortalecimento do Estado, investimento público, iniciativa privada nacional, ciência e tecnologia e distribuição de renda. Deve defender um Estado capaz de induzir o desenvolvimento sem sufocar a sociedade e uma economia de mercado que não esteja submetida exclusivamente à lógica rentista e aos interesses do capital financeiro.

É preciso voltar a falar ao trabalhador que quer ter sua casa, seu carro, seu negócio, seu diploma, seu emprego melhor, sua família protegida e seus filhos em condições melhores do que as suas. A política nacional-popular precisa oferecer não apenas proteção contra a pobreza, mas um caminho concreto para a prosperidade popular.

E, diante disso, o Trabalhismo não pode ser espectador. Portanto, todas as nossas energias precisam concentrar na reeleição de Luís Inácio Lula da Silva.

Mas e o nosso Partido?

A amarga derrota eleitoral do campo democrático no Congresso atravessou a todos. O PL compôs a maior bancada do século. O Trabalhismo fez apenas 6 das 513 cadeiras. O Centrão tem sido varrido. O campo de esquerda está espremido. 

O perfil entre os eleitos está em dois grandes grupos: aqueles que tiveram muito dinheiro – acima da casa dos muitos milhões – e os outros que dialogaram com uma base forte de opinião, independente do campo. Não há mais, nessa consolidada polarização, espaço para ficar em cima do muro.

Como nosso Partido não tem vocação para ser representante das elites e dos grandes grupos econômicos, é fundamental, do ponto de vista pragmático, que ele volte a ser visto como um partido de esquerda.

Isto pode parecer um contra-senso, sobretudo com uma sociedade indo à direita. Mas somos peixe de água doce no salgado aquário do eleitorado conservador. Não adianta.

Hoje, somos metade do PCdoB e do PSOL. Nenhum parlamentar nosso pautou, nos últimos anos, o debate nacional.

Nossa forma de estrutura partidária está envelhecida e esgotada nos estados. Caciques regionais precisam conduzir uma reconstrução e dar a vez para quadros mais jovens, arejados e, de preferência, à esquerda.

A Juventude Socialista, ainda que com grande dificuldade, fez os três mais votados na nominata de estadual no maior estado do país. Performances como de Isadora Brizola, Gabriela Ortiz, Léo Lupi, Pedro Ribeiro, Fernando Sirchia e tantos outros demonstram que há uma geração – de quadros eleitorais ou não – que precisa começar a dirigir o Partido em todo o Brasil desde já.

No momento que há mais nostalgia e “resgate” de figuras como Brizola e Getúlio e suas pautas no debate público, o PDT faz sua menor bancada. Portanto não é uma questão de zeitgeist e sim do eleitorado, no melhor dos casos, nos enxergar como apenas um museu e não como organização em movimento.

Sim, usei o termo proibido entre nós: “museu”. Mas, como diria nosso Alberto Pasqualini, a função de um partido não é de cultuar a história, mas fazê-la.

A janela de oportunidades agora é fundamental. Escorado na máxima fernando-pessoaniana – tão cedo passa quanto tudo passa -, tudo precisa ser feito muito rápido.

Confio na liderança do Presidente Carlos Lupi na condução das conversas sobre eventuais federações e fusões. Aliás, todos seus críticos e desafetos caíram na direita e no ostracismo. E, sim, pragmaticamente, precisamos existir no ano que vem. Mas para chegarmos fortes no centenário da Revolução de 30, é preciso que aqueles que se esgotaram – ou simplesmente traíram nossa Direção Nacional! – se encostem em outras tarefas que não seja a condução do Trabalhismo.

“Quem não tiver confiança nos nossos destinos é indigno do legado que recebeu.” – Getúlio Vargas

Deixe um comentário