Quando o Capital sequestra a pauta racial, toda a classe trabalhadora perde

Quando o Capital sequestra a pauta racial, toda a classe trabalhadora perde

Por Neudes Carvalho – é Mãe da Aysha. Educadora Social, Militante política por raça, classe e gênero. Pesquisadora sobre o Futuro do Trabalho. Membro da Executiva Estadual do PDT de SP e presidenta estadual do movimento Negro do PDT-SP.


Pensando em Classe Operária ou Classe Trabalhadora – A População Negra é maioria, já que a população preta hoje representa 56% da população do Brasil. O “sequestro da pauta racial pelo capital” é uma crítica à apropriação e instrumentalização da luta antirracista por empresas e pelo sistema capitalista para fins de marketing, lucro e manutenção do status quo, esvaziando o potencial transformador e combativo do movimento negro. 

Essa discussão envolve várias dimensões:

  • Apropriação Cultural e Mercadológica: A pauta racial, que historicamente busca mudanças estruturais e eliminação do racismo, é frequentemente reduzida a campanhas publicitárias, produtos específicos (“representatividade” vazia) e ações de marketing pontuais, especialmente em meses como o da Consciência Negra. Isso gera lucro sem necessariamente combater o racismo estrutural que afeta emprego, renda, educação e segurança da população negra.
  • Neutralização Política: Ao transformar a luta em um nicho de mercado ou em uma ação de responsabilidade social corporativa (ESG), o capital busca controlar a narrativa e evitar contestações mais profundas sobre as raízes econômicas do racismo. O racismo estrutural, enraizado nas estruturas sociais e econômicas, é um fator chave na perpetuação da desigualdade.
  • Foco no Individualismo em Detrimento do Coletivo: A apropriação capitalista muitas vezes promove o “empreendedorismo negro” ou a ascensão individual como solução para o racismo, desviando o foco da necessidade de políticas públicas e transformações coletivas e estruturais. Isso pode criar a ilusão de mobilidade social sem desafiar a ordem existente.
  • Divisões Ideológicas: Dentro do próprio movimento negro e em discussões acadêmicas, há debates sobre os limites dessa apropriação. Algumas vertentes criticam o que consideram um “sequestro da pauta” por ideologias que não representam os interesses reais da população negra como um todo, como as discussões sobre o “black capitalism” ou apropriação por espectros políticos específicos. 

A grande imprensa e outras instituições ideológicas, muitas vezes alinhadas aos interesses da elite, bombardeiam o público com narrativas que culpam a corrupção política (vista como a única causa dos problemas) em vez de discutir a estrutura econômica e a concentração de poder real. O objetivo é impedir reformas que democratizam o acesso à riqueza e ao poder político, garantindo que a estrutura social e econômica permaneça oligárquica e sob o controle de uma minoria. Demandas por mudanças materiais e estruturais, como reforma agrária, distribuição de renda e acesso igualitário a serviços, são frequentemente reempacotadas como reivindicações simbólicas ou de “representatividade” sem alterar as assimetrias de poder existentes. Ao focar no sucesso individual e na inclusão de sujeitos marginalizados em espaços de elite sem mudar a estrutura, a elite desvia a atenção da opressão sistêmica, o que pode levar a um sentimento de desamparo e à crença de que a pobreza é resultado de falhas individuais, e não de um sistema desigual.

As elites se intrometem na luta racial principalmente através de estratégias de “dividir para governar”, manipulação ideológica e controle de recursos e instituições para manter o status quo e seus próprios privilégios econômicos e políticos. Os grupos dominantes exploram e exacerbam as divisões raciais para impedir que as classes trabalhadoras e desfavorecidas se unam em torno de interesses econômicos e políticos comuns. Historicamente, isso envolveu a criação de vantagens específicas para determinados grupos (por exemplo, imigrantes brancos em detrimento de pessoas negras escravizadas nas Américas coloniais) para fomentar ressentimento e competição por recursos escassos, como empregos e moradia. A classe dominante utiliza seu controle sobre a mídia corporativa, instituições educacionais e outras plataformas culturais para disseminar ideologias que refletem seus interesses. Isso pode incluir o uso da “ciência” para justificar o preconceito racial ou a promoção de narrativas que culpam as vítimas pela desigualdade estrutural, mascarando as disparidades sistêmicas.

Ao longo dos últimos 20 anos, observamos ao redor do mundo, não só no  Brasil as elites cooptarem ou fragmentar os movimentos por justiça racial, absorvendo alguns de seus membros em posições de elite ou direcionando o foco para reformas superficiais que não ameaçam a estrutura de poder subjacente. As elites cooptam as pautas de identidade com o objetivo de desviar a atenção de questões estruturais de classe, manter seu próprio poder e privilégios, e instrumentalizar essas agendas para seus interesses, como ganhos eleitorais ou econômicos.

O capitalismo dependente determina as condições de exploração e violência sobre a população negra brasileira. Para derrubar essa ordem social, não há saídas individuais ou escapistas, mas sim organização coletiva que entenda e enfrente a materialidade do racismo. A exploração do trabalho, que se manifesta na mais-valia e na luta de classes no capitalismo, tem suas raízes profundamente ligadas à formação social e histórica do Brasil, marcada pela colonização portuguesa. Este processo, caracterizado pela exploração das matérias-primas e território,pelo trabalho escravo e pela expropriação cultural. A estrutura do capitalismo dependente é definida pela subordinação de nações que, mesmo que independentes, têm as suas relações de produção remodeladas para manter os padrões de dependência. Os excedentes econômicos produzidos pelo capitalismo dependente são essenciais para o capitalismo central, exacerbando a dependência e dificultando a desvinculação desses países, perpetuando sua relação de subordinação da qual não detêm autonomia.  Ao discutir a ideia de que o capitalismo brasileiro seria “atrasado”, percebe-se que ele é condicionado a parecer, para que continue a apropriação e exploração econômica, impossibilitando a ruptura com as estruturas de poder e dominação vigentes, ou seja, preservando ao máximo o poder das classes dominantes. Para a continuidade do sistema capitalista dependente, as burguesias locais precisam estabelecer alianças estratégicas com as burguesias imperialistas, alinhando ideais e objetivos aos seus interesses. Esse vínculo promove, nos países de capitalismo dependente, um processo intensificado de exploração e expropriação do trabalho, capaz de sustentar os padrões de acumulação de ambas as burguesias. É importante ressaltar que essa dominação não é apenas externa; ela também se manifesta internamente por meio de uma relação de interdependência na qual ambas as burguesias se fortalecem mutuamente. Essa dinâmica molda uma burguesia complexa que utiliza o Estado como instrumento para garantir seu poder, atender suas demandas e proteger seus interesses, consolidando e perpetuando a dominação da classe trabalhadora. Essa burguesia está envolvida na esfera política, econômica e social, para atender suas exigências e proteger seus próprios interesses. Essa vinculação com a burguesia dos países centrais é vantajosa e essencial para a constituição e manutenção do capitalismo dependente na América Latina, especialmente no Brasil, onde essa articulação se torna um dos pilares de sua estrutura socioeconômica. 

É nessa dinâmica que se engendra a superexploração do trabalho, é uma característica estrutural do capitalismo periférico. Nos países países dependentes, o capital busca compensar a baixa produtividade do trabalho e as dificuldades de acumulação de capital intensificando a exploração dos trabalhadores, para além do que ocorre nos países centrais. Essa superexploração pode se manifestar de três formas principais: Os três mecanismos identificados :  A intensificação do trabalho, a prolongação da jornada de trabalho e a expropriação de parte do trabalho necessário ao operário para repor sua força de trabalho — configuram um modo de produção fundado exclusivamente na maior exploração do trabalhador, e não no desenvolvimento de sua capacidade produtiva.

A classe trabalhadora dos países dependentes é submetida a longas jornadas de trabalho ou a ritmos mais intensos, sem a devida compensação salarial. Esse aumento ocorre para que se compense com a superexploração do trabalho e reverta a perda de lucros que acontece com países de capitalismo dependente. Decorrente disso, existe uma desvalorização da força de trabalho, o que mantém os salários muito baixos em relação a essa carga horária. 

A superexploração do trabalho nos países periféricos é fundamental para a reprodução do capitalismo dependente, pois permite ao capital desses países competir no mercado internacional, mesmo diante de uma estrutura produtiva menos desenvolvida. Ao mesmo tempo, essa superexploração tem efeitos negativos profundos na sociedade, perpetuando a pobreza, a desigualdade e limitando o desenvolvimento social e econômico. A superexploração do trabalho gera uma dinâmica de dependência em relação ao capital internacional, reforçando a posição subordinada dos países periféricos na economia global. Isso cria uma forma de acumulação dependente, onde o desenvolvimento econômico é distorcido e submetido às necessidades do capital. 

A burguesia brasileira detém o poder necessário para se estruturar e continuar com a sua dominação, permitindo-se relacionar de forma mais íntima com o capitalismo internacional, controlar a classe trabalhadora, reprimindo por meio da violência e coesão, e usando o Estado como instrumento para aumentar o seu poder e para preservar os seus interesses.

Essa compreensão acerca do capitalismo dependente sobre a superexploração do trabalho é elemento essencial para apreender importantes determinantes da particularidade brasileira. Este contexto baliza o debate acerca da formação da classe trabalhadora nacional e de sua estruturação alicerçada ao racismo.

Fontes: 

IBGE

Livro: O Que é Antirracismo? Arun Kundnani

Livro: A classe trabalhadora de Marx ao nosso tempo – Marcelo Badaró mattos

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