Por Neudes Carvalho – é Mãe da Aysha. Militante política por raça, classe e gênero. Pesquisadora sobre o Futuro do Trabalho. Membro da Executiva Estadual do PDT de SP e presidenta estadual do movimento Negro do PDT-SP.
Por que é perigoso tratar o racismo somente como recorte ou pauta temática? Porque facilmente análises sociais conseguem comprovar que as desigualdades raciais têm raízes e consequências materiais e financeiras concretas, indo além de questões culturais ou de preconceito individual. Nessa perspectiva argumentamos que o racismo é um sistema estrutural que organiza as relações sociais e de poder, resultando em:
● Desigualdade de renda e riqueza: Pessoas negras e pardas no Brasil possuem, em média, renda e patrimônio significativamente menores do que pessoas brancas.
● Impacto no mercado de trabalho: A população negra enfrenta taxas de desemprego mais altas, maior informalidade e barreiras no acesso a cargos de liderança, mesmo com a mesma qualificação de pessoas brancas.
● Acesso desigual a serviços básicos: Existem disparidades no acesso à educação de qualidade, saúde, moradia digna e saneamento básico entre a população negra e branca, o que perpetua ciclos de pobreza e exclusão.
● Sub-representação em espaços de poder: A ausência de pessoas negras em posições estratégicas na política, judiciário e setor privado demonstra como a estrutura de poder é excludente.
Não é uma questão da militância “dizer” que o racismo não é uma “patologia” ou um desvio de conduta, mas sim um fator social que “organiza a vida” e a economia na sociedade brasileira. Daí a importância de direcionar o foco da discussão para a necessidade de políticas públicas e ações concretas de reparação e redistribuição de recursos, e não apenas para o debate abstrato ou simbólico do tema.
A opressão de raça não é uma distorção corrigível nem desvio moral, mas sim um elemento estruturante do capitalismo. Faço essa afirmação com base nas minhas próprias vivências políticas:
Não distante ou difícil de presenciar, ainda ouvimos como justificativa para a inação contra o racismo estrutural a “argumentação vazia”; Não é hora de falar de racismo antes de falar de economia”.
Quando ouço essa frase logo imagino uma sala com a luz acesa que em seu interior comete atos racistas, mas que quando as pessoas se retiram e apagam a luz o racismo acaba, vai embora, sabemos que a realidade é outra; O que afirmo com isso é que, o racismo se estrutura através das relações humanas e se hierarquizam conforme poder material, social e tom da cor da pele, ou seja, se estrutura conforme pessoas não pretas se estabelecem nas hierarquias não permitindo o avanço de pessoas pretas nas estruturas, principalmente pela falta de distribuição igualitários de recursos e oportunidades. Se pesquisarmos os impérios escravistas atlânticos até as atuais políticas de precarização, facilmente se estabelece uma genealogia sólida que atravessa séculos e mantém o racismo no topo da lista de todas as opressões. Esse fato social se dá conforme cada fase capitalista reinventa dispositivos racializados de dominação: das “plantations” ao complexo carcerário — industrial, dos códigos negreiros aos algoritmos discriminatórios.
O Racismo emerge não como anomalia, mas como tecnologia sistêmica que divide os trabalhadores, legitima a violência estatal e naturaliza hierarquias socioeconômicas confundidas com a cor da pele.
O resultado é uma demolição do discurso dominante segundo o qual o racismo se combate com promoção da diversidade e reconhecimento identitário. Essa abordagem foi cooptada pelo neoliberalismo para mascarar a dominação: Corporações celebram o multiculturalismo enquanto super exploram trabalhadores racializados. É fundamental a compreensão de que a opressão racial é dimensão inseparável da luta anticapitalista.
O processo de desenvolvimento das relações sociais dentro do sistema capitalista é mediado pelas relações econômicas, onde tudo acaba assumindo um duplo valor de forma intrínseca (valor de uso e valor de troca).
Diante desta realidade incontornável, desde o período colonial/mercantilista com a invasão de novos territórios (as Américas) até a atualidade, uma determinada população foi racializada, subjugada e escravizada para atender aos interesses econômicos das classes dominantes colonizadoras.
Esses povos racializados organizaram-se, lutaram e, diante de um movimento amplo, conseguiram romper, através de diversas frentes, com o sistema escravocrata, conquistando sua liberdade formal, mas sem garantias que pudessem dar igualdade de oportunidades para essa população.
A população negra conquistou sua liberdade, porém, seguiu sendo estigmatizada, perseguida e superexplorada na emergente sociedade capitalista no Brasil. Diante de toda situação imposta à população negra, seguimos até hoje ocupando as piores posições profissionais, com os piores salários e compondo a base da pirâmide social.
O Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo (composta em mais de 60% por negros e negras), e os governos burgueses adotam uma política de “segurança” voltada ao extermínio do povo preto, principalmente a juventude, como demonstraram as recentes chacinas no Rio de Janeiro. Entre 2020 e 2023, o país registrou mais de 16 mil mortes causadas por intervenções policiais, sendo a imensa maioria delas de homens jovens e negros.
Além disso, estatísticas mostram que 45% dos quilombos estão em áreas diretamente ameaçadas pelo desmatamento e pela grilagem de terras, comprovando que o avanço do agronegócio é também uma ameaça à cultura e à sobrevivência negra no campo.
Embora o desemprego geral tenha diminuído, os postos de trabalho ocupados por negros e negras continuam sendo os mais precarizados, marcados pela informalidade, precarização e baixa remuneração. O racismo continua determinando as condições de trabalho e renda no país, mesmo quando a taxa geral de desocupação apresenta variações. Negros e negras ocupam, em grande maioria, os postos de trabalho mais precarizados e informais, com rendimentos médios que representam 57,4% do salário de trabalhadores brancos.
Diante de todo esse cenário, fica evidente que o racismo é imposto como estrutural e parte essencial da manutenção do sistema capitalista, manifestando-se de várias formas, seja através do racismo ambiental, religioso, recreativo e regional, entre tantos outros.
Nós os pedetistas, os Trabalhistas, acreditamos que, na luta de classes, a luta antirracista é parte fundamental do enfrentamento ao sistema capitalista, que se alimenta do racismo como uma das formas para seguir aprofundando as desigualdades e se reproduzindo. O papel dos Trabalhistas é romper essa visão racializada da sociedade, combater toda forma de opressão e discriminação, associando tais lutas à batalha contra o capitalismo e pelo poder popular.
O Trabalhismo defende que embates classistas e antirracistas são dialeticamente indissociáveis, rejeitando tanto o reducionismo economicista quanto o essencialismo identitário liberal.
Convocamos uma reimaginação do antirracismo como projeto de transformação estrutural: Não há emancipação racial genuína sem superação do capitalismo.