Neudes Carvalho – É Mãe da Aysha. Educadora Social, Militante política por raça, classe e gênero. Pesquisadora sobre o Futuro do Trabalho. Membro da Executiva Estadual do PDT de SP e presidenta estadual do movimento Negro do PDT-SP.
Desde a abolição da escravidão, a população negra permanece em posições de desvantagem estrutural no mercado de trabalho brasileiro, resultado de um racismo que se mantém como traço central da sociedade e se manifesta na persistente desigualdade de oportunidades e condições. O Estado brasileiro teve papel decisivo nesse processo, seja por meio da exclusão da população negra das principais proteções sociais na Consolidação das Leis do Trabalho de 1943, seja pela negligência da questão racial durante a consolidação do mercado de trabalho e mesmo após a Constituição de 1988.
Mais de 136 anos após a abolição formal da escravidão em 13 de maio de 1888, a população negra no Brasil ainda enfrenta reflexos diretos desse passado, concentrando-se nos trabalhos mais precários, informais e exaustivos do país. Dados recentes de 2025 e 2026 mostram que o racismo estrutural continua a ditar a desigualdade no mercado de trabalho, onde a população negra (pretos e pardos) é atingida de forma desproporcional pela desocupação e pela falta de direitos trabalhistas. A exemplo desse cenário, temos a famosa escala 6×1. Essa escala é uma jornada de trabalho onde o funcionário trabalha seis dias consecutivos e descansa um, totalizando 44 horas semanais.
As reclamações em torno da escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) ganharam grande destaque, tornando-se um debate central sobre direitos trabalhistas e qualidade de vida no Brasil. A principal queixa é que essa jornada é exaustiva e impede o equilíbrio entre vida pessoal e profissional; Essa escala representa um regime exaustivo e precarizado, que afeta desproporcionalmente a população negra, especialmente mulheres e jovens. Ouvindo esses grupos sociais nas ruas, eles apontam que esse modelo funciona como um reflexo de desigualdades históricas, sendo chamado de “neoescravidão” ou “escravidão de carteira assinada”, devido à sobrecarga e falta de tempo para vida pessoal, lazer e saúde.
O Ministério do Trabalho informou entre 2024 e 2025 que trabalhadores negros (pretos e pardos) são maioria nas escalas 6×1, compondo cerca de 63,1% desse segmento, enquanto brancos representam 35,5%. Em visita ao Sindicato dos Trabalhadores em Campinas, registramos o seguinte cenário em relação à percepção sobre a escala 6×1: “ a escala é vista como uma barreira para a mobilidade social e dignidade, pois impede o trabalhador de ter uma “vida além do trabalho”, prejudicando o lazer (52,6%), relacionamentos familiares (43,5%) e o descanso.
A luta contra a escala 6×1 sem redução de salário é considerada parte da luta contra o racismo estrutural, pois a precarização laboral atinge corpos negros com mais intensidade, ecoando as longas jornadas impostas no período escravista. Facilmente a voz de jovens negros se firmam, ao escancarar que, negros, moradores de periferias e com baixa escolaridade são os mais sujeitos a essa jornada, enfrentando também longos tempos de deslocamento. Mulheres negras ao terminarem a jornada 6×1, muitas vezes assumem jornadas de trabalho doméstico (economia do cuidado), resultando em sobrecarga insustentável.
Avançar contra a escala 6×1 é lutar contra o racismo estrutural, visto os sintomas já postos pela piramide social brasileira, essa que é refletida diretamente no mercado de trabalhado formal ou informal no Brasil: trabalhadores negros, em especial as mulheres, estão não apenas subrerrepresentados em regimes exaustivos e precários, mas também enfrentam maiores desafios nos âmbitos da saúde mental, pobreza de tempo, acesso à cidade, lazer, sociabilização e remuneração. A sobrecarga de trabalho dificulta ainda mais a superação de obstáculos em relação à escolarização e, consequentemente, a mobilidade social, contribuindo para a transmissão intergeracional da pobreza.
A Maioria na Escala: são trabalhadores e trabalhadoras Negros (as) a maioria dos trabalhadores formais em jornadas de 6 dias de trabalho para 1 de descanso (6×1), especialmente nos setores de comércio e serviços. Segundo o Atlas da Escala 6×1, 46% desses trabalhadores recebem entre R1 e R2 ( Instrução normativa) – média salarial R$ 1.620. Costumo dizer que, se as vítimas do roubo dos sonhos não têm classe social, os alvos desse crime em sua forma mais explícita um roubo à mão armada e violento têm. São os trabalhadores de baixa renda das metrópoles contemporâneas, empurrados para as periferias, a horas de distância de seus locais de trabalho. No ir e vir, o tempo para dormir se encurta. Na região metropolitana de São Paulo, há uma clara dissociação entre a localização do emprego e a da moradia, com grande parte da população levando entre duas e três horas para chegar a seus trabalhos diariamente.
Quando se fala da necessidade do fim da escala 6×1 de trabalho, não se trata (principalmente no contexto brasileiro) de uma pauta simplesmente econômica e de classes, mas étnico-racial. É difícil comprovar em dados sociais, alguma tentativa real e estrutural de integrar com dignidade a população Negra na sociedade de classes após a abolição; Foram impostas uma série de barreiras nas mais diversas esferas da vida social, com um único fim: manter esse grupo ocupado em mera subsistência. Dentre essas barreiras, destacam-se as relações econômicas, em especial no que tange à empregabilidade dos ex-escravizados. Em textos anteriores também já mencionei que, com todo o processo de incentivo à imigração europeia, em uma clara tentativa de “embranquecimento da população”, restou ao negro poucas ou quase nenhuma oportunidade de adentrar no mercado de trabalho.
Tal acontecimento histórico reverbera até os dias de hoje. Não à toa, as piores condições de trabalho afetam principalmente a população negra. Esse processo gerou a exclusão de uma ampla parcela da população brasileira da ordem econômica, social e política vigente. Já sabemos que, devido ao contexto do capitalismo dependente, não foram realizadas as reformas estruturais necessárias para romper com a antiga ordem e garantir algum nível de bem-estar social para os estratos mais baixos (além de um desenvolvimento endógeno das forças produtivas, em uma análise mais econômica), o que também podemos chamar de “Revolução Democrática.
No processo de estratificação social à brasileira, o povo negro “liberto” pós-Lei Áurea foi condicionado aos estratos mais baixos da hierarquia social, o que ocasionou o recrutamento para vagas de emprego que apresentavam as piores condições isso, quando conseguiam ser contratados. Quando afirmo que o centro só funciona por conta do trabalho da periferia, é simplesmente porque de fato, o motor invisível que sustenta o funcionamento dos grandes centros urbanos, é a mão de obra de trabalhadoras e trabalhadores que se deslocam das periferias, garantindo um trabalho contínuo desses agentes periféricos. Atendentes de padaria, cobradores de ônibus, trabalhadores de supermercados e comércios em geral trabalham seis dias para folgar apenas um (que nem sempre é domingo), garantindo que a cidade funcione ininterruptamente.
A tão aclamada liberdade de 1888 foi, para além de tudo, a liberdade de morrer de fome, de ser (graças à Lei de Terras) impulsionado para os grandes centros urbanos e, por fim, confinado em áreas periféricas e pouco propícias à habitação. Nesse contexto de uma economia paupérrima, a população, que é em sua maioria negra, se vê limitada a duas alternativas igualmente desoladoras: a de se deixar cooptar pelo crime organizado, morrendo ainda jovem; ou a de tentar adentrar na economia capitalista, que não de hoje a rejeita. Ao escolher a segunda opção, o jovem se vê condicionado a se submeter à escala 6×1, em situações desumanizadoras e degradantes, além do 7×0 na crescente “plataformização” do trabalho, nos aplicativos de entrega, transporte e similares. As péssimas condições de trabalho do povo negro são efeitos diretos dessa falsa democracia racial, que tamém venho mencionando por aqui em textos anteriores.
Nesse sentido, o combate ao racismo estrutural passa necessariamente pela luta da redução da jornada de trabalho. O Roubo de Tempo e Cotidiano dos Trabalhadores Precarizados mostra que os submetidos a essa jornada são majoritariamente jovens, negros e periféricos, frequentemente atuando em hipermercados, farmácias, shoppings e serviços de limpeza. A redução da jornada de trabalho, como a proposta de fim da escala 6×1, é defendida como uma medida de “reparação”, pois garante mais tempo livre para educação, cuidado, lazer e participação política, direitos historicamente negados à população negra. O movimento pelo fim da escala 6×1 é também um movimento por justiça social e racial, visando diminuir a discrepância de direitos e a precarização que afeta desproporcionalmente as pessoas negras e periféricas. Se os submetidos ao 6×1 têm um rosto, ele com certeza é negro, jovem e feminino.
Fontes:
- Ministério do Trabalho e Emprego
- Atlas da Escala 6×1
- Dieese
- PNADC – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua