Daniel Matos – Gaúcho, gremista, migrante regional interesado en la fauna política latinoamericana y tercermundista. Cinéfilo, lector voraz, principiante buceador de leyes. “Trabalhista” y peronista por conciencia y procedencia popular.
- texto originalmente publicado na Revista 006 Embaúba
Costuma-se dizer que vivemos uma época carente de lideranças. Mas essa afirmação, repetida como um lamento nostálgico, erra o alvo. A história não produz líderes por mera vontade ou escassez moral das épocas: ela os forja em circunstâncias específicas, em conflitos que exigem coragem, visão e capacidade de síntese. O problema, portanto, não é a ausência de líderes — é a ausência de batalhas capazes de produzi-los. E, sobretudo, a ausência de uma inteligência trabalhista capaz de formular essas batalhas.
O Trabalhismo, em seu auge, nunca foi apenas um conjunto de políticas sociais ou uma doutrina nacional-popular. Foi, antes de tudo, uma inteligência política: uma forma de interpretar o país, identificar seus antagonismos e organizar o povo para enfrentá-los. Essa inteligência sabia ver, onde outros viam apenas rotina, as contradições que pediam luta; sabia transformar o sofrimento do povo em programa, e o programa em mobilização. Sem essa capacidade, líderes não passam de nomes; com ela, tornam-se parte de um movimento histórico.
As lideranças que marcaram o Brasil — de Vargas a Jango, de Brizola a tantos quadros populares — surgiram não por acidente, mas porque havia conflitos claros e um pensamento político capaz de dar-lhes forma. A Legalidade, a luta pela soberania, as reformas de base, a resistência ao arbítrio: eram batalhas nítidas, com adversários identificáveis e uma estratégia estruturada. Era o encontro entre circunstância e consciência.
Hoje, o vazio que sentimos não é de figuras carismáticas, mas de um campo político capaz de organizar o sentido da época. Sem luta, não há liderança. Mas sem uma inteligência que formule o que deve ser combatido, como deve ser combatido e para quê deve ser combatido, a luta se desfaz antes mesmo de começar. O que nos falta não é um “salvador”, e sim a capacidade coletiva de produzir as condições para que lideranças reais emerjam.
A ausência dessa inteligência trabalhista — analítica, criativa, combativa — nos condena à orfandade política. Órfãos de direção, vagueamos entre diagnósticos fragmentados, agendas reativas e discursos que não se articulam em projeto. Órfãos de batalhas, resignamo-nos a administrar o cotidiano enquanto a história continua sendo escrita por outros. E, nessa dupla orfandade, ficamos também sem futuro: não porque ele esteja distante, mas porque ninguém está organizando o caminho até ele.
Reconstruir a inteligência trabalhista significa recuperar a capacidade de identificar as contradições estruturais do país, formular projetos de transformação e convocar a sociedade para batalhas que valham a pena. Significa recolocar a política no terreno da disputa estratégica — e não da mera sobrevivência institucional. Significa, sobretudo, retomar a vocação de ser força histórica e não simples espectadora do próprio tempo.
Se a história ensina algo, é isto: líderes surgem quando o povo está em movimento; e o povo se move quando há uma inteligência política capaz de apontar direção. O desafio não é esperar o próximo grande nome — é recriar o terreno onde ele possa nascer. Porque, sem luta, não há liderança. E sem uma inteligência política que dê direção a essa luta, continuaremos órfãos — não apenas de líderes, mas de futuro.