15 MAR 19

Tabata Amaral: ‘A mudança não é só possível, ela já começou’

Por Tabata Amaral

Já não é segredo para ninguém que são inúmeras as barreiras que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho, em ambientes sociais e por aí vai. E seria diferente na política? Claro que não! Meu início de mandato parlamentar todos os dias me lembra que ver uma mulher jovem eleita deputada federal é desconcertante para muita gente. Você é filha de fulano? Sua família é dona da empresa x? Você é solteira ou casada – me perguntaram em uma votação. Não, deputado, não sou filha de político, muito menos herdeira, e o meu estado civil não importa para a minha atuação parlamentar.

Quase que em um ritual diário, perguntam se eu sou mesmo deputada. Diante da afirmação positiva, um segurança chegou a questionar se eu não estava me confundindo, se eu não era deputada estadual. Mesmo com a identificação de deputada federal no peito – aquele pin pregado na roupa – sou constantemente impedida de entrar no plenário da Câmara. Num único dia, fui barrada cinco vezes, em diferentes ambientes. E por quê? Porque sou jovem e mulher – não “pareço” deputada.

Neste primeiro mês, já tive minha inteligência questionada (para não trazer o conjunto de adjetivos nada lisonjeiros usados por outros parlamentares para me descrever) mais vezes do que em toda a minha vida. Eu compus a delegação brasileira cinco vezes em competições mundiais de ciências (sempre como a única mulher) e sou formada em ciência política e astrofísica. Isso me faz perceber mais uma vez como os preconceitos sobrepõem qualquer evidência. Me faz pensar também em todas as mulheres que, ao contrário de mim, não tiveram todo o apoio que tive na minha carreira acadêmica: é difícil acreditar na sua competência quando todos os dias apontam o contrário.

O machismo sabota a participação feminina de diferentes maneiras. Às vezes hostil, outras nem tanto, o fato é que ser uma jovem mulher no Parlamento é um desafio cultural no Brasil. Trata-se de romper barreiras, lutar por novas mentalidades. Avaliem se, além de jovem, fosse também negra e homossexual. Estaria enfrentando simultaneamente todas as lutas vanguardistas.

Hoje, as mulheres ocupam apenas 77 do total de 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, um aumento de 50% em relação à legislatura passada. O Brasil está na 156° posição no ranking mundial da participação das mulheres na política, em uma lista de 190 países. Ainda temos um longo caminho e muita luta pela frente.

Há, contudo, um outro aspecto no debate das ideias que gostaria de pontuar. Trata-se de outra mecânica perversa (e antiga) para calar a voz dos que, como eu, querem mudar a política. É a desqualificação do discurso pelo uso de argumentos falaciosos.

No último dia 14 de fevereiro, subi à tribuna da Câmara para o meu primeiro discurso no Plenário. E ali defendi minha bandeira, a educação. Quem me conhece sabe que fui ativista porque vi a importância da educação e a falta que ela faz principalmente nas periferias do nosso país. Trabalhei como professora, como pesquisadora, e conheci a realidade de vários lugares do nosso país, como a de Sobral, nesse caso uma experiência exitosa da educação pública brasileira.

Essa é minha luta há nove anos. Já é até clichê falar que, para termos uma educação de qualidade e igualitária, precisamos resolver velhas questões, como a da alfabetização, de uma boa formação dos professores, de carreiras sólidas de magistério, entre outras.

Mas um dos pontos mais importantes a enfrentar é o do Fundeb (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica), pois ele vence em um ano e temos agora uma chance única de não apenas colocá-lo na Constituição mas de tornar o fundo mais redistributivo.

No meu discurso, falei da importância de aproveitar essa chance também para criar incentivos para a implementação de boas práticas da educação Brasil afora. E qual foi a reação à minha fala? Inverdades. Minhas colocações sobre a renovação e reestruturação do Fundeb foram falsamente resumidas como se discursasse em prol da canalização de mais recursos para a educação no Brasil (utilizando-se, diga-se de passagem, de números bastante distantes da realidade).

Esse processo de desconstrução do outro foi classificado por Igor Barbosa, mestrando da USP e integrante do Acredito, movimento do qual sou cofundadora, como a “falácia do espantalho”. Querem calar a voz dos que ousam apontar erros. É a demagogia da velha política ante a crítica que fiz à polarização ideológica que estamos vivendo na educação e que denunciei em meu pronunciamento. Não estava errada. Essa situação atingiu o clímax, agora, com a recomendação assinada pelo ministro Ricardo Vélez de que escolas públicas gravem vídeos com seus alunos lendo o slogan do governo após cantar o hino nacional.

A imposição de doutrina partidária e religiosa vai contra o pluralismo e a liberdade garantidos na Constituição. Não podemos aceitar. Apesar de tudo isso, enfrento o dia a dia com muita coragem, pois tenho certeza que a mudança que tanto almejamos e merecemos, de um país onde gênero, cor da pele e local de nascimento deixem de importar tanto, de políticas públicas que considerem as evidências e respeitem os contextos locais, ela não apenas é possível como já começou.

Tabata Amaral foi eleita deputada federal pelo PDT de São Paulo em 2018. Antes disso, formou-se em ciência política, com bolsa integral, pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Pesquisa e atua em temas ligados à educação.

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