03 MAR 19

Brizola e o Sambódromo

De 2014, o texto contextualiza a importância histórica do local para o PDT

* Por Osvaldo Maneschy, Antonio Oséas, Guilherme Galvão Lopes, Apio Gomes

Para se entender o significado para o PDT dos 30 anos da inauguração do Sambódromo, em 3 de março de 1984, é preciso fazer uma reconstituição daquele período histórico logo após a estrondosa vitória de Brizola nas eleições de 1982 para Governador do Rio de Janeiro – a primeira pelo voto direto depois de décadas de regime de exceção –, quando Brizola derrotou, inclusive, a primeira fraude eleitoral eletrônica no Brasil comprovada – o Caso Proconsult. Em 1984 os poderosos da ditadura de 64 ainda estavam no poder e Brizola, governador, era uma ameaça real e imediata para os militares e seus aliados civis que controlavam o Brasil com mão de ferro.

Além de enfrentarem a crescente ojeriza da população, farta de autoritarismo, os militares temiam a crescente popularidade de Brizola – inimigo deles desde 1961, quando comandou, com êxito, a Campanha da Legalidade para garantir a posse do Presidente João Goulart, episódio que atrasou por três anos o golpe de 1964. Os militares sabiam com quem estavam lidando.

Eleito em 82 contra tudo e contra todos, Brizola tornou-se imediatamente o inimigo principal do regime decadente – ameaça a ser contida, principalmente porque as pesquisas de opinião da época o apontavam como fortíssimo candidato à Presidência da República pelo voto direto, como a população começaria a exigir pelas ruas do Brasil após o início da campanha das Diretas-Já.

Aliás foi o apoio total e explícito de Brizola às Diretas Já que alçou a campanha a novo patamar, o dos megacomícios, depois que articulou e deu todo apoio à realização do comício da Candelária pelas diretas, já em abril de 1984, que reuniu mais de 1 milhão de pessoas. Mas este assunto é tema para outro artigo.

Estamos falando do Brizola recém-empossado governador que, por conta do imenso respeito por tudo o que fora e fizera antes de 64, e também conta do longo exílio de 15 anos, estava de volta à política. E era candidatíssimo à presidente, fato que o tornou o inimigo número um dos militares ainda no poder e seus aliados civis – especialmente os que já dominavam a mídia.

Se antes não fora levado a sério como candidato a governador; tanto que as eleições de 1982 foram as mais livres e transparentes de todas as realizadas após a ditadura graças aos debates francos e abertos nas rádios e nas tevês; agora que se tornara governador e candidato a presidente da República, tinha que ser levado – e muito – a sério. A barragem da mídia contra tudo o que fizesse, anunciasse ou apenas indicasse que faria – tornou-se prioridade.

Brizola se elegera sem máquina e sem dinheiro e praticamente sem partido, com o recém-fundado PDT, depois da forte e histórica sigla PTB, fundada por Getúlio Vargas, lhe ter sido tomada numa manobra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) articulada pelo General Golbery do Couto e Silva. Brizola se elegeu pela “força do povo”, como gostava de dizer, comparando a sua vitória para governador em 82 com de Getúlio Vargas, em 50 para presidente da República.

Inicialmente os donos do poder, “a elite” como Brizola gostava de definir, lançaram contra ele dois dos mais influentes jornais do eixo Rio-São Paulo: o “Jornal do Brasil” e o “Estado de São Paulo”. Com este último se dando ao luxo de pagar a um notório articulista com o único e exclusivo propósito de tentar desmoralizar Brizola. Neste período, inicio de 1983, “O Globo”, após seu notório envolvimento na campanha eleitoral para eleger o candidato do PDS, Moreira Franco, no voto e na marra, preferiu manter discreta distância.

A campanha sistemática da mídia para lhe criar dificuldades não intimidou Brizola que, recorrendo a sua vasta experiência de administrador como ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-prefeito de Porto Alegre, foi se saindo bem naquele início de governo, driblando as armadilhas montadas contra ele – entre elas o fato de ter assumido governo com o Rio de Janeiro praticamente falido.

Fatos que não impediram que “O Globo”, tão logo Brizola anunciou a construção do sambódromo no segundo semestre de 83, desencadeasse campanha contra esta interferência que considerava indevida em algo que era extremamente delicado para a empresa – o Carnaval carioca – uma grande fonte de lucro e de audiência para os veículos das Organizações Globo.

A luta contra o sambódromo foi a segunda grande batalha do sistema Globo contra o Brizola, luta que se estendeu até o dia de sua morte em 2004, quando só então a empresa abriu a guarda – ele deixou de ser encarado como um “perigo”.

Depois do sambódromo, outras batalhas viriam. Os veículos de comunicação das Organizações Globo combateram a educação em horário integral, os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps); combateram a política de defesa dos direitos humanos e de segurança pública, distorcida como sendo “para proteger bandidos”; combateram a encampação dos péssimos serviços de ônibus prestados no Rio; combateram o saneamento básico das favelas, que passaram a receber água e esgoto; combateram a priorização das políticas públicas voltadas para a população mais pobre, como “Cada Família um Lote”, “Luz na Escuridão”, etc. etc.

Especificamente na construção do sambódromo, obra feita em apenas três meses, as Organizações Globo inicialmente insinuaram que a ela não ficaria pronta a tempo para o Carnaval de 1984; depois acusaram o governo estadual de desperdiçar dinheiro público; garantiram que a sonorização da passarela não tinha como ter qualidade; especularam que os ingressos para o desfile não seriam vendidos por falta de compradores; e, até sugeriram que, por erros de projeto, os espectadores correriam riscos. Quando a obra já estava quase pronta, véspera do Carnaval, as Organizações Globo falaram até em risco de desabamento.

Brizola montou uma operação de guerra, mobilizou as agências do Banerj, tirou os ingressos das mãos dos cambistas e o primeiro Carnaval do sambódromo, transmitido com exclusividade pela TV Manchete, recém-fundada, foi sucesso total.

Aliás, é bom explicar isto: Brizola não aceitou as exigências da Globo para a transmitir o Carnaval. Exigências que a emissora não quis abrir mão e, por conta delas, acabou perdendo a milionária cobertura para a TV Manchete, que não contestou o que as autoridades estaduais determinaram para ser feita a cobertura.

No último segundo, querendo reverter a situação, o dono da Globo tentou construir uma parceria com a TV Manchete, mas o dono desta, detentor dos direitos de transmissão, exigiu que a Globo – para também passar o Carnaval na sua programação – usasse o ícone da TV Manchete em sua imagem, por esta ser a única geradora de imagens do Carnaval. Condição que não foi aceita pelo dono da Rede Globo que ficou de fora do primeiro Carnaval do sambódromo.

Galeria de fotos

flbap-admin

Sem descrição sobre o Autor

COMENTÁRIOS