23 AUG 18

Que socialismo é esse?

Por Matheus Bizzo

Traçar táticas para a estratégia socialista não é nada fácil. Afinal, qual concepção socialista defender? E qual viabilidade?

Além de um modo de produção, o Brasil apresenta uma formação social complexa. Temos aqui retratos de via prussiana e via americana – que se relacionam – naintrodução do Capitalismo, além de uma complexidade social e cultural pouco vista na História. Essas conhecidas vias de consolidação do sistema são somadas à um fator determinante para compreendermos o país: o atual Imperialismo.

Apenas três governos foram anti-imperialistas no Brasil: Getúlio Vargas, João Goulart e Lula (somo o primeiro mandato de Dilma, apesar de intensificar o processo de desindustrialização). O mais avançado, para surpresa de alguns, foi o de Getúlio. Justamente o que tinha um discurso – via textos ou símbolos – menos à esquerda. Seria o de Jango, mas este foi impedido pelo Golpe de 64. Lula fez um ótimo governo, ajudou muitos brasileiros, mas o reformismo tímido perdeu seu setor tático ao atingir a maior popularidade – mais do que merecida – e não garantiu tantas conquistas de forma estruturada.

A primeira luta para o Socialismo nos países periféricos é desenvolver um projeto nacional de desenvolvimento, ou seja, anti-imperialista. Nosso Socialismo, como está na Carta de Mendes e nas ideias de Darcy Ribeiro, leva em conta a propriedade privada, mas com função social – e não será por ela que a sociedade brasileira deve ser estruturada – com as características complexas do Brasil, uma mistura de “atrasos” e dinamismos, com muitas contradições, de forma lenta, gradual e exigirá um enorme exercício da dialética e paciência de seus entusiastas.

O Brasil só será desenvolvido quando romper com a estrutura capitalista. Essa é a dinâmica posta no sistema-mundo. E mesmo se não fosse, precisaria ser imperialista num futuro distante, mas isso não garante bem-estar total de seu povo. Só a estrutura socialista resolve a humanidade, dizia Leonel Brizola

Porém esse estágio não está na atual encruzilhada no Brasil, estamos ainda traçando o nosso projeto de desenvolvimento. O que mais motiva dúvidas sobre ele está na viabilidade de um acordo com a burguesia.

É preciso equacionar as forças produtivas com as relações de produção, pois, ainda que seja anti-imperialista, a estrutura ainda capitalista é viciada no seu predatismo com os mais pobres e leva o país ao subdesenvolvimento. Para equacionar o predatismo na maior parte burguesia brasileira, entra, talvez, a principal tarefa do Partido Democrático Trabalhista: organizar o povo brasileiro.

Muito se fala de organização sindical e tal organização passa por um grande desafio depois que rasgaram a CLT e, por mais que conteúdo seja capitalista, as relações de trabalho passam por outra estética – isso levará tempo para uma nova forma de organização de luta dos trabalhadores.

Talvez para atingir a consciência de classe e nação de forma urgente seja preciso disputar territórios. Por mais que mudem os termos, algumas dinâmicas do capital mostram sua face no Brasil quando os trabalhadores (não chamem de “colaboradores”) vão aos seus bairros sem asfalto, esgoto tratado, luz, educação, saúde e segurança. Os problemas estão ludibriados no chão da fábrica, mas aterrorizam a família brasileira que tem medo de andar nas ruas. O imperialismo pode parecer um termo distante, mas podemos falar de desemprego e das filas nos hospitais públicos.

Se não houver um povo consciente e organizado, não haverá projeto anti-imperialista e, posteriormente, socialista. Precisamos usar a máquina partidária, os mandatos para ouvir e falar para o povo brasileiro. O Partido serve ao povo, não são os votos que servem ao Partido. Isso não é romantismo, é o que Getúlio nos ensinou e no que o PT falhou.

Com uma base social consciente – isso vai muito além de intenção de voto -, o PDT terá capital político o suficiente para viabilizar o projeto hoje encabeçado pelo companheiro Ciro Gomes: um reformismo forte, defendendo os trabalhadores, o empresariado nacional e apresentando um estrutural projeto de desenvolvimento das forças produtivas brasileiras e bem-estar do país.

Mas precisamos entender que, um dia, tal projeto terá atingido seu limite e, para avançar na mudança de estrutura, precisaremos do povo brasileiro ao lado. E isso começa hoje.

O Partido dos Trabalhadores falhou na organização popular ao longo dos anos e, quando teve que avançar no seu projeto, sofreu um golpe que, mesmo com a cobertura golpista da maior parte da imprensa, teve apoio popular – o povo está cada vez mais arrependido de ter apoiado, mas o golpe segue em marcha.

A viabilidade de “conciliação de classes” de um governo Ciro Gomes exige, dada à complexidade do Brasil, um enorme grau de organização do povo brasileiro e o Partido Democrático Trabalhista deve ser a grande ferramenta.

O Socialismo do PDT se constrói levando o PDT às pessoas, não só as pessoas ao PDT.

Bruno Ribeiro

Secretário Nacional de Comunicação da FLB-AP.

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