02 JAN 18

#Retro2017 | Darcy Ribeiro: do CIEP aos índios, uma vida de lutas essenciais

O legado de Darcy Ribeiro é eterno, por isso está na #Retro2017.

Confira!

Darcy Ribeiro: do CIEP aos índios, uma vida de lutas essenciais

“Como é que se constituiu o povo brasileiro, se não foi pela assimilação progressiva de grupos indígenas?”, questionava o líder pedetista

*Por Bruno Ribeiro

Brasília, 18/4/2017 – Reconhecido antropólogo, escritor e político brasileiro, Darcy Ribeiro marcou sua trajetória não só pela obstinada meta de desenvolver a educação pública nacional ao lado de Leonel Brizola – vide os 506 CIEPs no estado do Rio de Janeiro -, mas também por reafirmar, com louvor, a incansável luta para defender os povos indígenas, tão representativos para a formação da nação brasileira e inegavelmente massacrados pela cultura neo-brasileira.

“Por dez anos, andei exaustivamente por todo o país e não encontrei em lugar nenhum qualquer grupo de ex-índios confundíveis com os caboclos. Quaisquer que fossem as condições que enfrentassem, por mais que elas lhes fossem adversas, ainda mesmo quando profundamente mestiçado com negros e com brancos, permaneciam índios”, confirmou o líder pedetista no prefácio do livro ‘Os índios e o Brasil’, de Mércio Gomes, onde ponderou a manutenção da originalidade da cultura indígena, que resiste até hoje.

Segundo ele, a sobrevivência desses índios residia, precisamente, na sua aparente incapacidade para se desfazerem na sociedade nacional. “Isto colocava uma questão crucial que ainda vibra, desafiando a Antropologia brasileira: como é que se constituiu o povo brasileiro, se não foi pela assimilação progressiva de grupos indígenas?”, indagou.

“Vai ser necessário aprofundar muito mais o nosso conhecimento sobre o papel do convívio dos índios com a civilização, debaixo das opressões do escravismo, e sobre as condições em que mulheres apresadas eram prenhadas para parir filhos que não se identificavam com a etnia materna e que eram rechaçados pela paterna”, comentou Darcy, que conseguiu, na década de 50, um feito histórico: a criação do Parque do Xingu, no Mato Grosso. A área foi fundamental para a preservação dos povos indígenas do Centro-Oeste.

Já na introdução do livro ‘O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil’, o ex-senador da República criticava o posicionamento dos cidadãos que “orgulhosos de sua tão proclamada, como falsa, ‘democracia racial’, raramente percebem os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais”.

“O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade”, disse.

“O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis. Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e dos negros contra a escravidão. Depois, somente nas raras instâncias em que o povo-massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de estruturação social”, acrescentou na sua análise conjuntural do processo civilizatório.

Visionário

Sempre atual, Darcy já conclamava o povo a pensar sobre uma visão que, para ele, era óbvia, onde o grande desafio que o Brasil enfrenta, até hoje, “é alcançar a necessária lucidez para concatenar essas energias e orientá-las politicamente, com clara consciência dos riscos de retrocessos e das possibilidades de liberação que elas ensejam”.

“O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair, através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas, índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravo”, afirmou.

Confira a íntegra do livro aqui.

Legado

Em uma produção da PUC do Rio Grande do Sul, em 2008, Paulo Ribeiro, sobrinho e presidente da Fundação Darcy Ribeiro, lembrou que o pedetista foi um etnólogo dedicado ao estudo e conhecimento dos índios da Amazônia, do Xingu e do Pantanal. “Dizia que os índios, aos poucos, foram ‘desasnando-o’, fazendo com que os visse não como objeto de estudo externo, que se olhava desde fora, mas como gente que eram”, ponderou.

“Gente capaz de dor, de tristeza, de amor, de gozo, de desengano, de vergonha. Gente que sofria a dor suprema de ser índio num mundo hostil, mas que guardava no peito um orgulho de si mesmos como índios. Gente muito mais capaz do que nós de compor existências livres e solidárias, adaptando-se penosamente aos novos tempos para sobreviver tal qual é ou era”, completou, ao desejar que a opinião pública rogue por uma coexistência mais solidária entre a sociedade brasileira e os índios.

Na sua Fundação, criada em 1996, Darcy inscreveu em seu estatuto o objetivo de promover medidas, planos e programas de solidariedade aos povos indígenas brasileiros, bem como a defesa da Amazônia e do Pantanal como os grandes jardins da terra.

Bruno Ribeiro

Secretário Nacional de Comunicação da FLB-AP.

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