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Dia do Índio: Mário Juruna revoluciona Congresso Nacional com discurso histórico

Deputado federal, o cacique Xavante defendeu os direitos dos povos originários e a legalidade com Leonel Brizola

*Por Bruno Ribeiro

Brasília, 19/4/2017 – “Juruna é o primeiro índio que está representando brasileiro, porque o governo brasileiro não dá oportunidade pra índio”, destacava há 34 anos, no Congresso Nacional, o deputado federal pelo PDT, Mário Juruna, durante o histórico discurso em referência ao Dia do Índio. “É hoje a nossa semana, a Semana do Índio, foi votada do Presidente Vargas, que se lembrou para poder deixar a semana do índio no escrito pra nós”, completou, ao exaltar o líder trabalhista.

Reconhecidamente combativo e com uma personalidade forte, foi para a tribuna mostrar a representatividade e força de um cacique Xavante que ficou reconhecido por sua luta incansável pelos direitos dos povos indígenas. “Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna. Eu quero que gente trata índio brasileiro o mais possível dentro do melhor”, cobrava.

Sobre a presença de minorias no parlamento, o cacique mostrou o lamentável cenário da legislatura: “Único índio que tá falando hoje, único deputado que tá falando hoje: não é terceiro, não é quinto deputado, não é cinquenta deputado. Se tiver ao menos mais cinquenta Juruna, o Juruna já tinha mudado o Brasil”.

Sobre o líder do seu partido, ele foi enfático: “O Brizola é homem, foi cassado, como acontece com o índio, por isso eu apoio Brizola e por isso quero dar liberdade para Brizola”.

Confira mais trechos, sem revisão, do pronunciamento do parlamentar, que foi eleito, em 1982, no estado do Rio de Janeiro. A íntegra poderá ser acessada ao final, em PDF.

“É hoje a nossa semana, a Semana do Índio, foi votada do Presidente Vargas, que se lembrou para poder deixar a semana do índio no escrito pra nós. Foi muito bonito semana do gente, é muito bacana, como acontece pra semana do trabalhador, como acontece com a semana do metalúrgico. Então, por que não tem uma semana do índio? Então, precisa que nós vamos conservar esse semana da gente. Segundo, quero apresentar exemplo com minha candidatura, mesmo, porque hoje já podia ter Deputado índio antes 400 anos e podia ter índio aqui há 1.500 anos pra trás. Podia ter Deputado aqui no Brasil mas nós não somos culpados. Quem é culpado, é responsável do Brasil é esse pessoa que não dá oportunidade pra índio. Foi por isso que nós só aprende, só estuda só o primário. Só nós que aprende o ABC, que nós aprendemos c chamando que casa boa. Então, é isso que nós não queremos.” 

“Então primeiro eu quero falar em nome do companheiro trabalhador, porque vocês é a mesma coisa como índio, como posseiro, é a mesma coisa como lavrador e é a mesma coisa como a tribo. Esse pessoal que está lá em cima, que a gente sofre repressão da autoridade, esse pessoal é o filho do empresário, o filho do deputado, o filho do senador. Esse resto que é o pessoal filho de pobre, eu quero considerar mais ainda esse pessoal que leva sacrifício, pessoal que sofre muito mais que a gente que está vivendo muito bem aqui na Câmara Federal.”

“E muita gente que achava, quando eu entrei na política, muita gente falava contra Juruna, falava: “Imagina como que Juruna vai entrar no plenário, imagina, o índio, o que é que vai resolver no plenário, como é que índio vai representar índio?” E eu quero saber: imagina, o que é que o branco pode? Talvez índio pode representar melhor do que qualquer deputado, qualquer senador e qualquer da República.”

“Juruna é o primeiro índio que está representando brasileiro, porque o governo brasileiro não dá oportunidade pra índio, porque ele quer continuar tutelar toda vida índio. E nós não somos tutelados, somos responsáveis, nós somos gente, nós somos ser humano.”

“Quem não tem consciência, me trata como objeto, me trata como boneca. E quando eu passo aqui dentro de plenário e alguns companheiros à frente de mim e diz cara emburrada é ridículo. Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna. Eu quero que gente trata índio brasileiro o mais possível dentro do melhor.”

“Cada um de nós tem consciência e cada um de nós tem capacidade. Ninguém tem menos capacidade. Todos nós tem capacidade e todos nós tem inteligência e todos nós tem a vontade para assumir onde que existe poder. Eu acho esse já é fruto está nascendo aqui dentro do Brasil, esse já é sinal está nascendo aqui dentro do plenário. Único índio que tá falando hoje, único deputado que tá falando hoje: não é terceiro, não é quinto deputado, não é cinquenta deputado. Se tiver ao menos mais cinquenta Juruna, o Juruna já tinha mudado o Brasil.”

“Governo da República não pode ser indicado por uma pessoa. Presidente da República tem que ser mais votado com povo brasileiro. Até eu me lembro muito bem que antes de 64 Brasil tinha muito ouro, era muito sagrado e hoje Brasil não tem mais muito ouro não. Está estragado. O Brasil não tem mais ouro. Quem está estragando o Brasil é o próprio governo federal, é este presidente da República que está estragando nosso Brasil, junto com Delfim, esse responsável pelo Brasil.”

“Quero falar problema do Brizola. O Brizola é homem, foi cassado, como acontece com o índio, por isso eu apoio Brizola e por isso quero dar liberdade para Brizola, porque, como acontece com o posseiro, como acontece com o índio, o Brizola foi expulso do Brasil sem necessidade. E por que o governo não expulsa outro agora? Expulsa todo o ministério, tira todo o ministério! Bota na rua todo mundo!”

“Se o governo federal, ele tem capacidade, ao lado do povo, se o governo federal assume, como homem, tira meia dúzia de ministro que atrapalha o nosso Brasil. Tirava meia dúzia, o presidente da República, qualquer um de nós apoiava ele. Nós apoiamos o presidente da República e nós levava para crescer mais ainda o nome dele. Desse jeito, ninguém vai apoiar o presidente. Ninguém pode apoiar sujeira. Eu mesmo não pode apoiar sujeira porque eu quero que o presidente muda o nosso Brasil. Porque o presidente é responsável da Nação, o presidente é juízo do povo, o presidente é o pai do povo, o pai do Brasil. Agora, como está hoje, o presidente é o pai do povo? Não existe pai do povo, não. Aqui não tem pai do povo, não.”

“O presidente foi eleito com empresário, presidente foi compromisso com multinacional, com fazendeiro, com empresário e grande empresário. Se presidente pai do Brasil, presidente segurava toda barra que está acontecendo no Brasil. E aqui gente tá morrendo. E por quê? Porque não tem presidente, não tem autoridade. E toda autoridade é comprada, toda autoridade está se vendendo, quer o dinheiro, quer ganhar dinheiro.”

“Às vezes, presidente é bom e assessor diretor quem engana o presidente, assessor que não leva verdade para presidente. Por isso que presidente passa mal assessorado. Se tiver assessor bom, se tiver diretor bom que levava recomendação do povo, eu acredito que presidente atendia pedido do povo.”

“Sou homem do povo, sou homem de campo, quando me criei não encontrei nem um branco, não encontrei nem um avião, nem automóvel, nem estrada; onde me criei era sertão, eu só escutava canto do passarinho, e hoje eu encontro muito pressão contra índio, e invasor, e estrada. A gente está recebendo muita pressão.”

“Quando eu tive na Holanda, é país pequeno, todo holandês vive igual. Aqui Brasil é muito grande e muita gente tá precisando da terra. Aqui eu quero pedir a V.Excia., presidente, vamos pensar juntos, vamos reformar o nosso Brasil, viu? Vamos dividir, terra é para posseiro, é terra para fazendeiro, é terra para índio, vamos dividir a nossa terra.”

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Bruno Ribeiro

Secretário de Comunicação da FLB-AP.

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