Discurso

O último discurso de Brizola

Brizola: “Estamos cumprindo a grande missão que Getúlio Vargas nos delegou”

(SP 4/06/2004) Pela transcrição: Osvaldo Maneschy e Antonio Oseas

Leonel Brizola, presidente nacional do PDT, fez dois pronunciamentos no Encontro Nacional da sexta-feira (4/06). Um pela manhã, na abertura do evento, quando saudou os 1.123 delegados reunidos na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e da Força Sindical – um prédio de 14 andares na rua Galvão Bueno 762, no bairro da Liberdade, São Paulo – e outro ao final da tarde, no lançamento da candidatura de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, como pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PDT. Brizola foi recebido com carinho pela platéia que lotava o auditório de mais de 1.000 lugares e foi interrompido algumas vezes por gritos e palavras de ordem.

O Encontro Nacional do PDT começou por volta das 9 horas da manhã com pronunciamentos de sindicalistas, militantes e dirigentes do PDT sob a condução de Carlos Lupi – enquanto no térreo ocorria o credenciamento das delegações procedentes de todas as regiões do Brasil. Com a chegada de Brizola ao plenário, por volta das 11 horas da manhã, começou a parte oficial do evento após a execução, por violeiros, do Hino Nacional – aplaudidíssimos pela platéia e pelos componentes da mesa. Os oradores se sucederam, destacando-se as boas vindas aos pedetistas por parte do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, e de Paulinho pela Força Sindical, anfitriões do encontro. Ainda na abertura dos trabalhos – antes da entrevista coletiva de Brizola e Paulinho às 14h, acompanhados por todos os dirigentes nacionais do PDT e da instalação dos 12 grupos de trabalho para a elaboração do Projeto Brasil Trabalhista – Brizola fez seu primeiro pronunciamento no plenário, tendo ao seu lado a Direção Nacional do Partido. Um pouco antes, em ato conduzido por Lupi e Paulinho, dezenas de sindicalistas ligados à Força assinaram ficha de filiação ao PDT, movimento de adesão que, segundo Paulinho, deve continuar. Na opinião dele, dos 1.800 presidentes de sindicatos filiados a Força, pelo menos 500, de imediato, deverão se filiar ao PDT.

A íntegra do pronunciamento de Brizola, pela manhã – “Companheiras e companheiros, minha saudação muito especial às nossas companheiras e companheiros de São Paulo e a esta instituição que já está em nosso coração, que é a Força Sindical, saudação que faço na pessoa do Paulinho, brevemente prefeito de SP. Faço também minha saudação a todos os dirigentes sindicais filiados à Força Sindical aqui da cidade de São Paulo, no interior de São Paulo e em todos os Estados da Federação. Quero dizer a vocês que neste ato que acabamos de concluir, quando nosso Paulinho e o companheiro Lupi anunciavam as filiações, que fiz a minha parte como dirigente deste Partido. Quero destacar que fiz isto como alguém que está procurando, modestamente, continuar os passos daqueles homens que estão ali naquele cartaz afixado no fundo do auditório: Getúlio Vargas e João Goulart, e de um outro grande trabalhista que não está ali (apontando para a faixa) – Marcondes Filho.

Um grande homem que a ditadura tentou apagar da memória dos brasileiros, o paulista que construiu com Vargas toda esta estrutura legal que dá garantias sociais ao trabalhador brasileiro.

Aproveito este momento especial para homenagear não só esses grandes homens, como todos os companheiros e companheiras que não estão mais aqui conosco, mas que prestaram grandes serviços ao povo trabalhador e que nós, neste momento, vivemos inspirados neles. Não posso deixar de homenagear também a esta figura jovem, cheia de energia, que é o Paulinho, juntamente com seus companheiros. Quero dizer que vivi intensamente esses atos de filiação: eles foram muito especiais porque nós estamos aqui no coração de uma das principais trincheiras de luta do povo trabalhador, a Força Sindical – que reforça nosso Partido com a militância de seus principais dirigentes, não só aqui em São Paulo, como em vários outros Estados. Nós sabemos perfeitamente separar as lutas, os deveres e os compromissos de nosso Partido, das obrigações dos sindicatos de trabalhadores. Porque somos um Partido político que tem força cívica, patriótica – que não se vende e nem se entrega enquanto existir Trabalhismo organizado neste país. E enquanto existir Trabalhismo não haverá força estranha no mundo que consiga firmar o pé sobre nossa soberania. O que representamos para o povo brasileiro, a Força Sindical representa para os trabalhadores. As coisas estão ficando mais claras porque estão desaparecendo as imposturas. Agora que tudo começa a ficar claro, o povo brasileiro sente-se mais certo e seguro porque enxerga seus caminhos. Para nós essas filiações têm importância muito grande porque com elas virão outras, virão milhares. Estamos cumprindo a missão que nosso grande chefe inspirador, Vargas – o maior de todos os brasileiros porque foi simples, humilde e sábio – delegou. Getúlio veio de longe para terminar sua vida com um ato de grande coragem para defender o povo brasileiro.

“Estamos cumprindo o legado que Vargas nos deixou” – Estamos fazendo algo que ele aprovaria. Ele que foi obrigado a criar aquele regime um tanto quanto exótico, como ele próprio considerava, porque não havia outra forma de arredar do poder políticos aproveitadores, ladrões, políticos que vendiam o Brasil. Getúlio foi obrigado a fazer com que existisse aquele regime, porque só assim conseguiria abrir os caminhos para os trabalhadores e para o povo. Pois estamos continuando com os rumos que ele nos ensinou a despeito das dificuldades, a despeito dos obstáculos que colocaram e colocam em nosso caminho. Hoje estamos aqui para dizer ao Brasil que enquanto este Partido e as idéias do Trabalhismo continuarem a influir na vida brasileira, estaremos garantindo o futuro de nosso povo com desenvolvimento e soberania.

Quando aquele regime terminou em 45 e se reorganizaram os Partidos políticos no Brasil, podem crer, não houve nenhum plano malicioso de Getúlio para criar um Partido conservador e um Partido trabalhista. Seu interesse não era manejar a vida política como quem tem as rédeas do poder nas mãos. Não. Ele apenas queria que o Brasil avançasse com um Partido de trabalhadores, um verdadeiro Partido Trabalhista, quando criou-se nosso antigo PTB, tão verdadeiro que precisaram nos roubar a sigla verdadeira e histórica. Isto para poder fazer crescer uma espécie de grande cogumelo que iria tornando nosso país ingovernável. A intenção de Vargas – quero dizer a vocês que tive a honra, como muitos aqui, de conviver alguns minutos, algumas horas, alguns dias com ele – a intenção dele era que este Partido que tivemos que recriar depois do golpe perverso para nossa sigla histórica – era de o Partido, o PTB histórico, atuasse sob a influência dos trabalhadores e de seus sindicatos. É por isso que hoje, aqui, estamos dando esse grande passo, oficialmente. É por isso que sem nenhuma intenção prévia, vou me filiar ao sindicato a que devo pertencer daqui por diante: quero que tragam a ficha para eu assinar, quero assinar a ficha na frente de vocês, dirigindo-me ao povo brasileiro. Quero aceitar a convocação de vocês e assinar esta ficha perante o povo brasileiro, me filiando ao Sindicato Nacional dos Aposentados. Sinto-me honrado e feliz de estar com eles, lutando em defesa dos trabalhadores. Mas ao me integrar a este Sindicato e honrar seus dirigentes, quero dizer a todos vocês que estou me filiando, mas não estou guardando o meu boné e indo para casa…

Os sindicatos são uma trincheira – Sindicatos são trincheiras e o que estou fazendo, junto com minha trincheira partidária, que é o PDT, é o que o velho Getúlio queria: além da trincheira partidária, estou entrando para minha trincheira sindical. Companheiros, nós temos uma grande responsabilidade. Tudo isto que tem acontecido desde o dia em que impuseram a ditadura, o regime da força, e desde que surgiu essa democracia meio mambembe manobrada pelo poder econômico, nosso país não conseguiu realizar-se a si mesmo. E as provas estão aí, quando passamos os acontecimentos que vivemos, um a um. Primeiro os graúdos de sempre se juntaram com os militares, que por sua vez ficaram segurando o povo como se fosse uma vaca leiteira para que pudessem ordenhá-la.

Depois fomos para as ruas, na campanha das “Diretas Já”, que carregou muita gente falsa nas costas. Mas isto hoje não tem importância, porque o povo foi para a rua e derrubou a ditadura. Assim como derrubamos Hitler e Mussolini, dando nosso sangue, participando da guerra cheios de sonhos para depois ter a decepção que tivemos.

O mundo caiu nas mãos de uma nação controlada por gente que absolutamente está comprovando que não é preparada para dirigir os destinos da humanidade, como é o caso dos EUA. Quem ganhou a guerra? Nem ingleses, nem franceses, nem ninguém. Eles apenas! Agora estão aí, conclamando como quem quisesse comprar um automóvel. Eles não tinham tanto dinheiro, nós entramos com um pouquinho, derramamos nosso sangue. Vencemos. Compramos o automóvel, só que é para eles dirigirem e passearem. E todos os demais só servem para lavar o automóvel, para cuidar do automóvel. Agora eles estão sozinhos no mundo pretendendo fazer o que? Construir um império como o romano? Para dominar e explorar a humanidade? Eles se consideravam os arautos dos direitos humanos, os arautos da soberania, quando combatiam o autoritarismo. Mas o que fizeram recentemente, para não falar das outras situações, todas assistimos. Invadiram sem declarar guerra, sem nada, num total desrespeito às Nações Unidas.

Críticas aos EUA – Agora estão lá ameaçando o mundo. O que os EUA fazem, com este Governo que está aí, representa uma ameaça à humanidade e precisamos, em toda parte, ter muita atenção sobre o que pretendem fazer!

Outros exemplos de melhor expressão estão aí. Quantas vezes ajudamos a construir este Partido que está no governo? Quanta colaboração nós demos? Eu próprio cheguei a concordar em concorrer como vice-presidente visando alavancar a candidatura do líder deles. Praticamente transferimos nossos votos, porque eram um Partido menor que o nosso até bem pouco tempo. Acho que hoje o PT tem menos municípios do que nós. Mas eles, de jogada em jogada, foram avançando e finalmente chegaram ao Governo. Chegaram ao Governo para que? Para servir finalmente a todo este esquema de dominação que está ameaçando a humanidade? Isto é tão verdade que colocados diante da parede, na comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, tiveram a atitude triste e deplorável de votar contra Cuba.

O governo brasileiro, o presidente Lula e algumas correntes que se proclamam de esquerda estão lá como carrapatos agarrados na teta do governo, votaram contra Cuba!

Defesa de Cuba – Muitos deles foram matar a fome em Cuba durante a ditadura, como é o caso do senhor José Dirceu, e foram tratados lá com todo carinho. Por que se escusaram de votar? Negar voto positivo em defesa de Cuba, foi o mesmo que votar contra Cuba, naquela comissão das Nações Unidas. Onde estão nossos jornaizinhos, Lupi? Quem é que tem o Jornal do PDT? Vocês estão vendo esta fotografia na primeira página? Está aqui toda a macacada. Estão eles aqui, rindo, debochando, quando protestavam falsamente, cinicamente, contra a decisão de FHC de dar aquele salário mínimo miserável. Estão eles aqui, rindo, quando deviam estar com a fisionomia grave.

José Dirceu, de tanto rir, chegou a botar a língua para fora. Estavam fazendo um deboche porque, no fundo, é afronta ao sofrimento e à humilhação dos trabalhadores. Eles, que fizeram isto há anos, o que estarão fazendo hoje diante da repetição do ato de FHC pelo governo que apóiam? Será que agora consideram esses míseros R$ 260 um salário digno? Salário digno foi o que Getúlio deu, a primeira vez. Salário mínimo com a intenção de fazer crescer a economia. Esta é a verdade: quem não deu, está diminuindo.

Cadê Collares? Quando o presidente Vargas deu este salário pela primeira vez, fez isto para que o salário crescesse com a economia, não é Collares? E sabem quanto aquele salário seria hoje? R$ 800. É bom que nós tenhamos isto sempre presente. R$ 800, este foi o salário que o presidente Getúlio deu pela primeira vez aos trabalhadores.

E assim também é a dívida. Eles que protestavam contra a dívida, agora só fazem aumentar a dívida. Esta vergonha, este verdadeiro capuz que colocaram sobre a cabeça do Brasil, para levarem nosso país para onde quiserem, para nos explorarem, para espoliarem nossa nação rica. Enfim, companheiros, quem pode nesta hora representar a esperança para o povo brasileiro somos nós, nosso Partido, o Trabalhismo.

O legado histórico do Trabalhismo – Porque nós estamos com a verdade. A base da nossa doutrina, do nosso pensamento, das nossas idéias, é a verdade irrefutável. Nós não acreditamos no capital estrangeiro que vem para cá dizendo que traz progresso e desenvolvimento. Só acreditamos nele quando chega aqui trazendo suas máquinas e suas famílias para morar aqui – e não uma malinha com dinheiro escorada nos bancos interessados em explorar nosso país.

Nós precisamos de fábricas, fontes de produção, precisamos de desenvolvimento e tecnologia. Se necessário, até pagamos. Não queremos é a bomba de sucção que trazem e ainda nos enchem de dívidas.

Nosso Partido pensa desta forma. Não rejeita a colaboração do capital estrangeiro, mas sob nosso controle e não sob controle deles. Também não damos mais importância ao capital estrangeiro que ao nosso. Isto porque nosso verdadeiro capital é o trabalho. Nós só acreditamos no trabalho do povo brasileiro. Por isto é que apontamos todo este quadro como uma grande injustiça. Copiamos tudo do estrangeiro e eles até concordam, batem palmas, elogiam. Mas o principal ele não nos dá: um bom salário. Lá na terra deles, pagam grandes salários para seus trabalhadores. Aqui, pagam exploração e a miséria para nossos trabalhadores. Vocês que estão atuando em sindicatos, sabem que é assim. Se é para copiar tudo dos estrangeiros, por que não copiar os salários? É o que interessa ao maior número de pessoas. É o que fazem países que tem uma soberania relativa, como é o caso da Austrália. Eu estive lá e vi com meus olhos. Vi um peão rural que não só tem garantias que tem aqui trabalhadores brasileiros, como ainda ganha U$ 200 por semana. Um peão rural. Imaginem o que ganha quem trabalha na indústria, escritórios, na parte mais avançada da economia. Uma vez perguntei a um grande dirigente, um homem que foi alto dirigente norte-americano, um tipo amável para conversar: por que tratavam a Austrália com juros tão fáceis, emprestavam aos australianos o que queriam? Por que lá pagavam tão bem aos trabalhadores e os organismos internacionais não se metiam com o salário deles? Ele parou, me olhou e disse em inglês, traduzido por um brasileiro: “Senhor Brizola, é que eles falam inglês…

É por isto, meus amigos, que o PDT é a força brasileira. É o Partido trabalhista de Vargas, o verdadeiro Partido trabalhista brasileiro, o dos trabalhadores. E não o desses politiqueiros que andam por aí vendendo nossa legenda. E só seremos verdadeiros como Partido se tivermos sindicatos aqui ombro a ombro conosco. Se tivermos trabalhadores de todas as categorias, porque não excluímos empresários que tenham o mesmo pensamento que cultivamos. Ao contrário, precisamos da experiências deles, da oportunidade que tiveram de aprender, que muitos trabalhadores não tiveram. Essa união fraterna se chama Trabalhismo. Na verdade, todas as doutrinas que estão aí, inclusive algumas que se apresentam como Socialistas, não passam de transplantes vindos de fora. Pegaram mudas de algumas árvores e plantaram aqui. O Trabalhismo, não, ele é autóctone, ele nasceu aqui no Brasil”. (palmas)

Trechos do 2º discurso de Brizola, no encerramento do primeiro dia:

“Eles assumiram o poder, experimentamos vários regimes, faltava a esquerdinha desse Zé Dirceu. Vejam bem, companheiros: quando cheguei do exílio, pensei que não era assim. Desci em Foz do Iguaçu, fui em São Borja para atender a vontade da minha querida Neusa, fui me persignar nos túmulos de Vargas e João Goulart. E depois vim vindo, queriam que fosse pra cá, fosse pra lá. Eu disse “não”: vou a São Paulo, vou ao ABC, vou ver Lula. A primeira visita que quero fazer mesmo é ao Lula. Quero ir lá na toca onde ele está. Acabei chegando, mas quero confessar a vocês… Não sei se cheguei a te contar isto, Paulinho… Quando cheguei, me senti chocado da forma com que Lula me recebeu. Vi que tinham mexido na sua cabeça. Vi que não era a cabeça de um trabalhador, porque estava numa atitude de arrogância… Me olhava assim, de cima para baixo… Aí me perguntei: porque será? Afinal, depois de tantos anos no exílio, não voltei para o Brasil para tirar lugar de ninguém… Trocamos algumas palavras, mas foi o suficiente para ele dizer: “Estamos aqui, lutando, para acabar com a “pelegagem” que dominava o sindicalismo”. E eu ainda argumentei: “Mas, Lula, você não encontrou o sindicalismo feito? Assim, com uma arrogância que eu…

Acabei encerrando logo, agradeci, mas senti que havia intriga profunda junto a ele e junto a todos os demais que estavam no seu entorno, pensando em construir um Partido. Havia toda uma argumentação de estruturas, mas continuei pensando da mesma maneira: “Tempos depois ele foi ao Rio, pensei que fosse retribuir a visita, mas não. Ele foi lá num ato, disse: ‘E o Brizola? Este pisa no pescoço da mãe para ser Presidente da República”. Minha mãezinha já estava morta…

Como pode me agredir assim? Pois ainda não respondi porque minha preocupação é outra, minha preocupação é com nosso povo, é salvar nossas crianças. Cheguei à conclusão de que Lula deveria crescer para aprender isto. Aí iríamos discutir, sentar, caminhar. Se mudar e pensar na gente como deve pensar de verdade, e não apenas nos comícios, está tudo bem. Mas não mudando, ele vai acabar dando com os burros nágua. Digo isto porque dei nossa colaboração até ele se eleger e agora, no 2o. turno, votamos nele. Chamou todo mundo, mas nosso Partido foi o único que fechou apoio. Fomos lá e ele disse na frente da imprensa: “Meu querido Brizola, precisamos do PDT, que tem experiência de Governo, que governou dois Estados da Federação. Precisamos trabalhar juntos, precisamos que nos ajudem e que venham para o Governo”.

O PDT e o governo Lula – Eu disse a ele: “Olha, não precisa dizer duas vezes, mas o que estamos interessados mesmo não é nos cargos, queremos pertencer ao grupo que discute políticas públicas do Governo”.

Saímos dali satisfeitos, fomos até comer uma pizza… Mas logo depois chamou para a presidência do BC um homem do Banco de Boston, e perguntamos: será que ficou louco? O que é isto? E mais uma nomeação, mais uma… Ele fez cada nomeação! Finalmente nos chamou, mas fomos sem muita esperança. Não tenho dúvida de que entre a eleição dele e a decisão de formar seu Governo, aconteceu alguma coisa. Lula levou um apertão na moleira tão grande que alterou a linha de pensamento dele.

Vocês não acham que é isto? Ali aconteceu alguma coisa. Eu então digo o seguinte: passei a observar o Governo e não tem maneira, tem que baixar o porrete… Não há a menor dúvida de que temos que dizer a esta gente toda, de todo o país, que não só nos opomos, mas estamos denunciando este Governo que já está aí a quase 2 anos e dá o que deu como salário mínimo! Onde está o entusiasmo do governo pela reforma agrária? Só têm feito ocupações e não uma reforma verdadeira, como sonha nosso trabalhador do campo. Digo isto com autoridade, porque fui eu, Brizola, quem criou o MST. Veio a ditadura, nos botaram pra fora e eles pularam em cima dos nossos acampamentos, protegidos pela igreja.

Então, companheiros, nós que viemos de longe, podemos avaliar o que está acontecendo. Temos que firmar nossas posições. Não para fazer oposição destrutiva, sistemática. Se propuserem alguma coisa boa no Congresso, sabem que estão autorizados a procurar nosso líder. Mas que não venham com enganação e tentativas de comprar nossos companheiros, porque serão denunciados como corruptores. Até nosso próprio líder (Miro Teixeira), que chegou ao Governo, mostrou-se fraco.

Resistência – Mas temos lá gente de valor que está resistindo. Estou me referindo aos deputados e senadores que estão lá, resistindo. Estou dizendo a verdade. Ainda ontem estive lá com eles em Brasília, fizemos uma excelente reunião e verifiquei que estão com a bandeira de nosso Partido erguida e não se entregam. Ontem mesmo, na discussão do mínimo, votaram contra o Governo. E aqui prestamos nossa homenagem.

Companheiros, desculpem minhas palavras, não preparei nenhum discurso. A Direção Nacional do PDT vai organizar um Governo paralelo. Nossas lideranças sindicais podem ir se preparando para nos ajudar. Vamos organizar um Governo paralelo, e se entre eles aparecer um Waldomiro, vão se ver conosco! Não é nem com a Polícia! Vamos acompanhar tudo passo a passo! Se pretendem vir com manobras de propaganda, com ajuda de profissionais, serão desmoralizados. Nós é que vamos desmoralizá-los e preciso da colaboração de vocês. Enquanto tivermos forças e razões, que Deus lá em cima nos lance suas bênçãos, precisamos ser incansáveis e proteger nossas crianças. Meu abraço e muito obrigado”.

“Não basta que seja pura e justa nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Agostinho Neto O último discurso de Brizola

Brizola: “Estamos cumprindo a grande missão que Getúlio Vargas nos delegou”

(SP 4/06/2004) Pela transcrição: Osvaldo Maneschy e Antonio Oseas

Leonel Brizola, presidente nacional do PDT, fez dois pronunciamentos no Encontro Nacional da sexta-feira (4/06). Um pela manhã, na abertura do evento, quando saudou os 1.123 delegados reunidos na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e da Força Sindical – um prédio de 14 andares na rua Galvão Bueno 762, no bairro da Liberdade, São Paulo – e outro ao final da tarde, no lançamento da candidatura de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, como pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PDT. Brizola foi recebido com carinho pela platéia que lotava o auditório de mais de 1.000 lugares e foi interrompido algumas vezes por gritos e palavras de ordem.

O Encontro Nacional do PDT começou por volta das 9 horas da manhã com pronunciamentos de sindicalistas, militantes e dirigentes do PDT sob a condução de Carlos Lupi – enquanto no térreo ocorria o credenciamento das delegações procedentes de todas as regiões do Brasil. Com a chegada de Brizola ao plenário, por volta das 11 horas da manhã, começou a parte oficial do evento após a execução, por violeiros, do Hino Nacional – aplaudidíssimos pela platéia e pelos componentes da mesa. Os oradores se sucederam, destacando-se as boas vindas aos pedetistas por parte do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, e de Paulinho pela Força Sindical, anfitriões do encontro. Ainda na abertura dos trabalhos – antes da entrevista coletiva de Brizola e Paulinho às 14h, acompanhados por todos os dirigentes nacionais do PDT e da instalação dos 12 grupos de trabalho para a elaboração do Projeto Brasil Trabalhista – Brizola fez seu primeiro pronunciamento no plenário, tendo ao seu lado a Direção Nacional do Partido. Um pouco antes, em ato conduzido por Lupi e Paulinho, dezenas de sindicalistas ligados à Força assinaram ficha de filiação ao PDT, movimento de adesão que, segundo Paulinho, deve continuar. Na opinião dele, dos 1.800 presidentes de sindicatos filiados a Força, pelo menos 500, de imediato, deverão se filiar ao PDT.

A íntegra do pronunciamento de Brizola, pela manhã – “Companheiras e companheiros, minha saudação muito especial às nossas companheiras e companheiros de São Paulo e a esta instituição que já está em nosso coração, que é a Força Sindical, saudação que faço na pessoa do Paulinho, brevemente prefeito de SP. Faço também minha saudação a todos os dirigentes sindicais filiados à Força Sindical aqui da cidade de São Paulo, no interior de São Paulo e em todos os Estados da Federação. Quero dizer a vocês que neste ato que acabamos de concluir, quando nosso Paulinho e o companheiro Lupi anunciavam as filiações, que fiz a minha parte como dirigente deste Partido. Quero destacar que fiz isto como alguém que está procurando, modestamente, continuar os passos daqueles homens que estão ali naquele cartaz afixado no fundo do auditório: Getúlio Vargas e João Goulart, e de um outro grande trabalhista que não está ali (apontando para a faixa) – Marcondes Filho.

Um grande homem que a ditadura tentou apagar da memória dos brasileiros, o paulista que construiu com Vargas toda esta estrutura legal que dá garantias sociais ao trabalhador brasileiro.

Aproveito este momento especial para homenagear não só esses grandes homens, como todos os companheiros e companheiras que não estão mais aqui conosco, mas que prestaram grandes serviços ao povo trabalhador e que nós, neste momento, vivemos inspirados neles. Não posso deixar de homenagear também a esta figura jovem, cheia de energia, que é o Paulinho, juntamente com seus companheiros. Quero dizer que vivi intensamente esses atos de filiação: eles foram muito especiais porque nós estamos aqui no coração de uma das principais trincheiras de luta do povo trabalhador, a Força Sindical – que reforça nosso Partido com a militância de seus principais dirigentes, não só aqui em São Paulo, como em vários outros Estados. Nós sabemos perfeitamente separar as lutas, os deveres e os compromissos de nosso Partido, das obrigações dos sindicatos de trabalhadores. Porque somos um Partido político que tem força cívica, patriótica – que não se vende e nem se entrega enquanto existir Trabalhismo organizado neste país. E enquanto existir Trabalhismo não haverá força estranha no mundo que consiga firmar o pé sobre nossa soberania. O que representamos para o povo brasileiro, a Força Sindical representa para os trabalhadores. As coisas estão ficando mais claras porque estão desaparecendo as imposturas. Agora que tudo começa a ficar claro, o povo brasileiro sente-se mais certo e seguro porque enxerga seus caminhos. Para nós essas filiações têm importância muito grande porque com elas virão outras, virão milhares. Estamos cumprindo a missão que nosso grande chefe inspirador, Vargas – o maior de todos os brasileiros porque foi simples, humilde e sábio – delegou. Getúlio veio de longe para terminar sua vida com um ato de grande coragem para defender o povo brasileiro.

“Estamos cumprindo o legado que Vargas nos deixou” – Estamos fazendo algo que ele aprovaria. Ele que foi obrigado a criar aquele regime um tanto quanto exótico, como ele próprio considerava, porque não havia outra forma de arredar do poder políticos aproveitadores, ladrões, políticos que vendiam o Brasil. Getúlio foi obrigado a fazer com que existisse aquele regime, porque só assim conseguiria abrir os caminhos para os trabalhadores e para o povo. Pois estamos continuando com os rumos que ele nos ensinou a despeito das dificuldades, a despeito dos obstáculos que colocaram e colocam em nosso caminho. Hoje estamos aqui para dizer ao Brasil que enquanto este Partido e as idéias do Trabalhismo continuarem a influir na vida brasileira, estaremos garantindo o futuro de nosso povo com desenvolvimento e soberania.

Quando aquele regime terminou em 45 e se reorganizaram os Partidos políticos no Brasil, podem crer, não houve nenhum plano malicioso de Getúlio para criar um Partido conservador e um Partido trabalhista. Seu interesse não era manejar a vida política como quem tem as rédeas do poder nas mãos. Não. Ele apenas queria que o Brasil avançasse com um Partido de trabalhadores, um verdadeiro Partido Trabalhista, quando criou-se nosso antigo PTB, tão verdadeiro que precisaram nos roubar a sigla verdadeira e histórica. Isto para poder fazer crescer uma espécie de grande cogumelo que iria tornando nosso país ingovernável. A intenção de Vargas – quero dizer a vocês que tive a honra, como muitos aqui, de conviver alguns minutos, algumas horas, alguns dias com ele – a intenção dele era que este Partido que tivemos que recriar depois do golpe perverso para nossa sigla histórica – era de o Partido, o PTB histórico, atuasse sob a influência dos trabalhadores e de seus sindicatos. É por isso que hoje, aqui, estamos dando esse grande passo, oficialmente. É por isso que sem nenhuma intenção prévia, vou me filiar ao sindicato a que devo pertencer daqui por diante: quero que tragam a ficha para eu assinar, quero assinar a ficha na frente de vocês, dirigindo-me ao povo brasileiro. Quero aceitar a convocação de vocês e assinar esta ficha perante o povo brasileiro, me filiando ao Sindicato Nacional dos Aposentados. Sinto-me honrado e feliz de estar com eles, lutando em defesa dos trabalhadores. Mas ao me integrar a este Sindicato e honrar seus dirigentes, quero dizer a todos vocês que estou me filiando, mas não estou guardando o meu boné e indo para casa…

Os sindicatos são uma trincheira – Sindicatos são trincheiras e o que estou fazendo, junto com minha trincheira partidária, que é o PDT, é o que o velho Getúlio queria: além da trincheira partidária, estou entrando para minha trincheira sindical. Companheiros, nós temos uma grande responsabilidade. Tudo isto que tem acontecido desde o dia em que impuseram a ditadura, o regime da força, e desde que surgiu essa democracia meio mambembe manobrada pelo poder econômico, nosso país não conseguiu realizar-se a si mesmo. E as provas estão aí, quando passamos os acontecimentos que vivemos, um a um. Primeiro os graúdos de sempre se juntaram com os militares, que por sua vez ficaram segurando o povo como se fosse uma vaca leiteira para que pudessem ordenhá-la.

Depois fomos para as ruas, na campanha das “Diretas Já”, que carregou muita gente falsa nas costas. Mas isto hoje não tem importância, porque o povo foi para a rua e derrubou a ditadura. Assim como derrubamos Hitler e Mussolini, dando nosso sangue, participando da guerra cheios de sonhos para depois ter a decepção que tivemos.

O mundo caiu nas mãos de uma nação controlada por gente que absolutamente está comprovando que não é preparada para dirigir os destinos da humanidade, como é o caso dos EUA. Quem ganhou a guerra? Nem ingleses, nem franceses, nem ninguém. Eles apenas! Agora estão aí, conclamando como quem quisesse comprar um automóvel. Eles não tinham tanto dinheiro, nós entramos com um pouquinho, derramamos nosso sangue. Vencemos. Compramos o automóvel, só que é para eles dirigirem e passearem. E todos os demais só servem para lavar o automóvel, para cuidar do automóvel. Agora eles estão sozinhos no mundo pretendendo fazer o que? Construir um império como o romano? Para dominar e explorar a humanidade? Eles se consideravam os arautos dos direitos humanos, os arautos da soberania, quando combatiam o autoritarismo. Mas o que fizeram recentemente, para não falar das outras situações, todas assistimos. Invadiram sem declarar guerra, sem nada, num total desrespeito às Nações Unidas.

Críticas aos EUA – Agora estão lá ameaçando o mundo. O que os EUA fazem, com este Governo que está aí, representa uma ameaça à humanidade e precisamos, em toda parte, ter muita atenção sobre o que pretendem fazer!

Outros exemplos de melhor expressão estão aí. Quantas vezes ajudamos a construir este Partido que está no governo? Quanta colaboração nós demos? Eu próprio cheguei a concordar em concorrer como vice-presidente visando alavancar a candidatura do líder deles. Praticamente transferimos nossos votos, porque eram um Partido menor que o nosso até bem pouco tempo. Acho que hoje o PT tem menos municípios do que nós. Mas eles, de jogada em jogada, foram avançando e finalmente chegaram ao Governo. Chegaram ao Governo para que? Para servir finalmente a todo este esquema de dominação que está ameaçando a humanidade? Isto é tão verdade que colocados diante da parede, na comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, tiveram a atitude triste e deplorável de votar contra Cuba.

O governo brasileiro, o presidente Lula e algumas correntes que se proclamam de esquerda estão lá como carrapatos agarrados na teta do governo, votaram contra Cuba!

Defesa de Cuba – Muitos deles foram matar a fome em Cuba durante a ditadura, como é o caso do senhor José Dirceu, e foram tratados lá com todo carinho. Por que se escusaram de votar? Negar voto positivo em defesa de Cuba, foi o mesmo que votar contra Cuba, naquela comissão das Nações Unidas. Onde estão nossos jornaizinhos, Lupi? Quem é que tem o Jornal do PDT? Vocês estão vendo esta fotografia na primeira página? Está aqui toda a macacada. Estão eles aqui, rindo, debochando, quando protestavam falsamente, cinicamente, contra a decisão de FHC de dar aquele salário mínimo miserável. Estão eles aqui, rindo, quando deviam estar com a fisionomia grave.

José Dirceu, de tanto rir, chegou a botar a língua para fora. Estavam fazendo um deboche porque, no fundo, é afronta ao sofrimento e à humilhação dos trabalhadores. Eles, que fizeram isto há anos, o que estarão fazendo hoje diante da repetição do ato de FHC pelo governo que apóiam? Será que agora consideram esses míseros R$ 260 um salário digno? Salário digno foi o que Getúlio deu, a primeira vez. Salário mínimo com a intenção de fazer crescer a economia. Esta é a verdade: quem não deu, está diminuindo.

Cadê Collares? Quando o presidente Vargas deu este salário pela primeira vez, fez isto para que o salário crescesse com a economia, não é Collares? E sabem quanto aquele salário seria hoje? R$ 800. É bom que nós tenhamos isto sempre presente. R$ 800, este foi o salário que o presidente Getúlio deu pela primeira vez aos trabalhadores.

E assim também é a dívida. Eles que protestavam contra a dívida, agora só fazem aumentar a dívida. Esta vergonha, este verdadeiro capuz que colocaram sobre a cabeça do Brasil, para levarem nosso país para onde quiserem, para nos explorarem, para espoliarem nossa nação rica. Enfim, companheiros, quem pode nesta hora representar a esperança para o povo brasileiro somos nós, nosso Partido, o Trabalhismo.

O legado histórico do Trabalhismo – Porque nós estamos com a verdade. A base da nossa doutrina, do nosso pensamento, das nossas idéias, é a verdade irrefutável. Nós não acreditamos no capital estrangeiro que vem para cá dizendo que traz progresso e desenvolvimento. Só acreditamos nele quando chega aqui trazendo suas máquinas e suas famílias para morar aqui – e não uma malinha com dinheiro escorada nos bancos interessados em explorar nosso país.

Nós precisamos de fábricas, fontes de produção, precisamos de desenvolvimento e tecnologia. Se necessário, até pagamos. Não queremos é a bomba de sucção que trazem e ainda nos enchem de dívidas.

Nosso Partido pensa desta forma. Não rejeita a colaboração do capital estrangeiro, mas sob nosso controle e não sob controle deles. Também não damos mais importância ao capital estrangeiro que ao nosso. Isto porque nosso verdadeiro capital é o trabalho. Nós só acreditamos no trabalho do povo brasileiro. Por isto é que apontamos todo este quadro como uma grande injustiça. Copiamos tudo do estrangeiro e eles até concordam, batem palmas, elogiam. Mas o principal ele não nos dá: um bom salário. Lá na terra deles, pagam grandes salários para seus trabalhadores. Aqui, pagam exploração e a miséria para nossos trabalhadores. Vocês que estão atuando em sindicatos, sabem que é assim. Se é para copiar tudo dos estrangeiros, por que não copiar os salários? É o que interessa ao maior número de pessoas. É o que fazem países que tem uma soberania relativa, como é o caso da Austrália. Eu estive lá e vi com meus olhos. Vi um peão rural que não só tem garantias que tem aqui trabalhadores brasileiros, como ainda ganha U$ 200 por semana. Um peão rural. Imaginem o que ganha quem trabalha na indústria, escritórios, na parte mais avançada da economia. Uma vez perguntei a um grande dirigente, um homem que foi alto dirigente norte-americano, um tipo amável para conversar: por que tratavam a Austrália com juros tão fáceis, emprestavam aos australianos o que queriam? Por que lá pagavam tão bem aos trabalhadores e os organismos internacionais não se metiam com o salário deles? Ele parou, me olhou e disse em inglês, traduzido por um brasileiro: “Senhor Brizola, é que eles falam inglês…

É por isto, meus amigos, que o PDT é a força brasileira. É o Partido trabalhista de Vargas, o verdadeiro Partido trabalhista brasileiro, o dos trabalhadores. E não o desses politiqueiros que andam por aí vendendo nossa legenda. E só seremos verdadeiros como Partido se tivermos sindicatos aqui ombro a ombro conosco. Se tivermos trabalhadores de todas as categorias, porque não excluímos empresários que tenham o mesmo pensamento que cultivamos. Ao contrário, precisamos da experiências deles, da oportunidade que tiveram de aprender, que muitos trabalhadores não tiveram. Essa união fraterna se chama Trabalhismo. Na verdade, todas as doutrinas que estão aí, inclusive algumas que se apresentam como Socialistas, não passam de transplantes vindos de fora. Pegaram mudas de algumas árvores e plantaram aqui. O Trabalhismo, não, ele é autóctone, ele nasceu aqui no Brasil”. (palmas)

Trechos do 2º discurso de Brizola, no encerramento do primeiro dia:

“Eles assumiram o poder, experimentamos vários regimes, faltava a esquerdinha desse Zé Dirceu. Vejam bem, companheiros: quando cheguei do exílio, pensei que não era assim. Desci em Foz do Iguaçu, fui em São Borja para atender a vontade da minha querida Neusa, fui me persignar nos túmulos de Vargas e João Goulart. E depois vim vindo, queriam que fosse pra cá, fosse pra lá. Eu disse “não”: vou a São Paulo, vou ao ABC, vou ver Lula. A primeira visita que quero fazer mesmo é ao Lula. Quero ir lá na toca onde ele está. Acabei chegando, mas quero confessar a vocês… Não sei se cheguei a te contar isto, Paulinho… Quando cheguei, me senti chocado da forma com que Lula me recebeu. Vi que tinham mexido na sua cabeça. Vi que não era a cabeça de um trabalhador, porque estava numa atitude de arrogância… Me olhava assim, de cima para baixo… Aí me perguntei: porque será? Afinal, depois de tantos anos no exílio, não voltei para o Brasil para tirar lugar de ninguém… Trocamos algumas palavras, mas foi o suficiente para ele dizer: “Estamos aqui, lutando, para acabar com a “pelegagem” que dominava o sindicalismo”. E eu ainda argumentei: “Mas, Lula, você não encontrou o sindicalismo feito? Assim, com uma arrogância que eu…

Acabei encerrando logo, agradeci, mas senti que havia intriga profunda junto a ele e junto a todos os demais que estavam no seu entorno, pensando em construir um Partido. Havia toda uma argumentação de estruturas, mas continuei pensando da mesma maneira: “Tempos depois ele foi ao Rio, pensei que fosse retribuir a visita, mas não. Ele foi lá num ato, disse: ‘E o Brizola? Este pisa no pescoço da mãe para ser Presidente da República”. Minha mãezinha já estava morta…

Como pode me agredir assim? Pois ainda não respondi porque minha preocupação é outra, minha preocupação é com nosso povo, é salvar nossas crianças. Cheguei à conclusão de que Lula deveria crescer para aprender isto. Aí iríamos discutir, sentar, caminhar. Se mudar e pensar na gente como deve pensar de verdade, e não apenas nos comícios, está tudo bem. Mas não mudando, ele vai acabar dando com os burros nágua. Digo isto porque dei nossa colaboração até ele se eleger e agora, no 2o. turno, votamos nele. Chamou todo mundo, mas nosso Partido foi o único que fechou apoio. Fomos lá e ele disse na frente da imprensa: “Meu querido Brizola, precisamos do PDT, que tem experiência de Governo, que governou dois Estados da Federação. Precisamos trabalhar juntos, precisamos que nos ajudem e que venham para o Governo”.

O PDT e o governo Lula – Eu disse a ele: “Olha, não precisa dizer duas vezes, mas o que estamos interessados mesmo não é nos cargos, queremos pertencer ao grupo que discute políticas públicas do Governo”.

Saímos dali satisfeitos, fomos até comer uma pizza… Mas logo depois chamou para a presidência do BC um homem do Banco de Boston, e perguntamos: será que ficou louco? O que é isto? E mais uma nomeação, mais uma… Ele fez cada nomeação! Finalmente nos chamou, mas fomos sem muita esperança. Não tenho dúvida de que entre a eleição dele e a decisão de formar seu Governo, aconteceu alguma coisa. Lula levou um apertão na moleira tão grande que alterou a linha de pensamento dele.

Vocês não acham que é isto? Ali aconteceu alguma coisa. Eu então digo o seguinte: passei a observar o Governo e não tem maneira, tem que baixar o porrete… Não há a menor dúvida de que temos que dizer a esta gente toda, de todo o país, que não só nos opomos, mas estamos denunciando este Governo que já está aí a quase 2 anos e dá o que deu como salário mínimo! Onde está o entusiasmo do governo pela reforma agrária? Só têm feito ocupações e não uma reforma verdadeira, como sonha nosso trabalhador do campo. Digo isto com autoridade, porque fui eu, Brizola, quem criou o MST. Veio a ditadura, nos botaram pra fora e eles pularam em cima dos nossos acampamentos, protegidos pela igreja.

Então, companheiros, nós que viemos de longe, podemos avaliar o que está acontecendo. Temos que firmar nossas posições. Não para fazer oposição destrutiva, sistemática. Se propuserem alguma coisa boa no Congresso, sabem que estão autorizados a procurar nosso líder. Mas que não venham com enganação e tentativas de comprar nossos companheiros, porque serão denunciados como corruptores. Até nosso próprio líder (Miro Teixeira), que chegou ao Governo, mostrou-se fraco.

Resistência – Mas temos lá gente de valor que está resistindo. Estou me referindo aos deputados e senadores que estão lá, resistindo. Estou dizendo a verdade. Ainda ontem estive lá com eles em Brasília, fizemos uma excelente reunião e verifiquei que estão com a bandeira de nosso Partido erguida e não se entregam. Ontem mesmo, na discussão do mínimo, votaram contra o Governo. E aqui prestamos nossa homenagem.

Companheiros, desculpem minhas palavras, não preparei nenhum discurso. A Direção Nacional do PDT vai organizar um Governo paralelo. Nossas lideranças sindicais podem ir se preparando para nos ajudar. Vamos organizar um Governo paralelo, e se entre eles aparecer um Waldomiro, vão se ver conosco! Não é nem com a Polícia! Vamos acompanhar tudo passo a passo! Se pretendem vir com manobras de propaganda, com ajuda de profissionais, serão desmoralizados. Nós é que vamos desmoralizá-los e preciso da colaboração de vocês. Enquanto tivermos forças e razões, que Deus lá em cima nos lance suas bênçãos, precisamos ser incansáveis e proteger nossas crianças. Meu abraço e muito obrigado”.

“Não basta que seja pura e justa nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Agostinho Neto