Depoimentos

Adeus,Brizola

Escrito por: David Lerer
Cidade: /
Data: 20/05/2011 - 20:22

Rio de Janeiro, seis da tarde poeirenta de terça-feira 22 de Junho, dia seguinte ao da morte de Leonel Brizola. Aqui da sacada do Palácio Guanabara não se consegue ver o fim da fila de populares que vieram dar o ultimo adeus ao “centauro dos pampas”, ente mitológico meio homem e meio cavalo, como Brizola era chamado com sarcasmo por inimigos e carinho pelos amigos. Ironia do destino: estou de partida para Portugal, onde Brizola, eu e vários outros passamos a derradeira fase de um longo exílio. Vou a Portugal visitar minha filha Maria que lá reside e que Brizola carregava nos braços quando tinha poucos meses de idade. E fico a pensar como este personagem épico e unico marcou a minha vida e de tantos brasileiros. Lembro daquela outra tarde, 25 de Agosto de 1961, quando dos porões do Palácio Piratini, armado de um microfone e apoiado em alguns milhares de homens de sua policia militar, um governador solitário, perdido no ultimo sul, ousou dizer “não passarão” às Forças Armadas manipuladas por generais golpistas e ameaçou bombardear (com que?) os navios da Marinha se ousassem entrar no Rio Guaíba. E aí se iniciou a inesperada resistência à conspiração contra a legalidade constitucional que pretendia impedir a posse de Jango após a renuncia do presidente Jânio Quadros. Uma resistência surpreendente para os padrões brasileiros, porém tão firme e corajosa que contagia o pais inteiro, incluindo o decisivo Estado de São Paulo, e vence: exemplo único em nossa historia. A coragem pessoal e política de Leonel de Moura Brizola já lhe reservaria um lugar especial neste ultimo meio século do Brasil. Exemplo igual só o de outro personagem mitológico, o “Cavaleiro da Esperança” Luis Carlos Prestes, que por sinal terminaria sua vida de lutas no mesmo partido de Brizola, o Partido Democrático Trabalhista, e fazendo a campanha presidencial do seu conterrâneo gaúcho. Eu mesmo levei Prestes ao ultimo comício paulista da campanha brizolista de 1989, que se realizou em Guarulhos. Além da coragem pessoal, a fidelidade às suas idéias por tanto tempo contra ventos e tempestades é outra marca tanto de Brizola quanto de Prestes, uma característica sem paralelo entre seus adversários e aliados. Tanto um quanto o outro tiveram milhares de companheiros cuja esmagadora maioria foi mudando de posição ao longo do caminho. Só estes dois, um comunista e o outro nacionalista de esquerda, foram do começo até o final de suas vidas sem mudar jamais de posição, sempre em linha reta. Retidão esta que se traduziu, tanto em um quanto em outro caso, na lisura impecável com o trato do dinheiro. No caso de Brizola é um caso único: foi uma vez prefeito de Porto Alegre e três vezes governador, e ninguém como ele teve a vida virada do avesso por dezenas de Inquéritos Policiais Militares, que passaram anos à cata de qualquer coisa que pudesse incrimina-lo. Nenhum homem publico foi tão espionado, xerocado, grampeado, seguido, investigado e xeretado quanto Brizola quando governador do Rio_e nada, rigorosamente nada jamais foi encontrado sequer vestígio de improbidade no uso do dinheiro publico. Brizola foi autoritário, sem duvida. Dentro do PDT comportou-se via de regra como caudilho e dono do partido, que considerava_e era_obra sua. Tinha um linguajar fora de moda, concordo, e não fazia questão de mudar. Tudo isso é verdade, e ele nem se dava ao trabalho de disfarçar. Mas apesar disso, e talvez por causa disso também, foi na indigente cena brasileira um político único que, como Getulio Vargas, seu padrinho e inspirador, saiu da vida para entrar na Historia. Por David Lerer

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