Depoimentos

Cibilis relembra alguns momentos marcantes de Brizola

Escrito por: Cibilis Viana
Cidade: /
Data: 20/05/2011 - 18:35

Cibilis Viana (Depoimento à Fundação Darcy Ribeiro) - É com profunda emoção que falo sobre Brizola. Afinal, ele foi durante um longo período, nada menos do que meio século, que atuei na vida pública sobre sua chefia. Com ele, enfrentamos momentos de muita satisfação, mas também passamos por muitas decepções entre elas o golpe militar de 64, e o exílio. Há mais de um quarto de século que residíamos no mesmo edifício, um apartamento separado do outro só por um andar, de sorte que o relacionamento entre nossas famílias foi muito estreito. Essa longa convivência permitiu-me consolidar todo um juízo conclusivo sobre Brizola, como homem público e, sobretudo, como pessoa humana. O marco de sua atuação política foi o profundo amor pelo seu país e seu povo e um respeito sacrossanto pelo uso dos recursos públicos. Como pessoa humana foi amigo dos companheiros, e, não obstante o envolvimento absoluto com a atividade política, não descurou de suas responsabilidades como chefe de família, sobretudo o carinho para com a sua companheira Neusa. É interessante assinalar os acontecimentos que marcaram a vida de Brizola e, de certa forma, contribuíram para formar e consolidar o seu pensamento político. Ainda em tenra idade, Brizola perdeu o pai, que fora um revolucionário integrante das forças maragatas que lutavam contra os chimangos, como eram alcunhados os defensores do governo Borges de Medeiros. Essas lutas que ensangüentaram o Rio Grande, entre 1923 a 1926, cessaram após entendimentos políticos, com a interferência ao governo federal. Depois de firmada a paz, o pai de Brizola regressava ao lar, quando foi vítima de uma emboscada que lhe roubou a vida. O pequeno Brizola foi influenciado pelos hábitos guerreiros dos homens dos pampas, tanto que manejava supostas armas, querendo imitar o líder revolucionário maragato, Leonel Rocha. Daí a troca de seu nome primitivo, Itagiba, para Leonel. Adolescente, Brizola foi viver na casa de uma família luterana, onde recebeu educação religiosa, o que contribuiu para que se arrefecessem seus ímpetos revolucionários, e nele, se desenvolvesse o espírito de solidariedade humana, de amor ao próximo e de justiça. Mais tarde, jovem estudante universitário, viu-se envolvido e sensibilizado pelos intensos debates que tratavam no meio estudantil, logo após a abertura política com a derrocada do Estado Novo. Na época, contrapunham-se três correntes de pensamento: os simpatizantes do movimento comunista, alentados pela vitória soviética na guerra; os simpatizantes defensores do queremismo, do getulismo; e os antigetulistas. Ao contrário do que se deveria esperar de um adolescente maragato. Brizola não incorporou o lados dos antigetulistas, deles dó conservando o lenço vermelho, e se revelou um ardente defensor das idéias de Getúlio, indo ingressar na Ala Jovem do Partido Trabalhista, na fase de sua organização. A partir daí passou a assimilar os fundamentos do trabalhismo, o primado do trabalho sobre o capital, a justiça social e a defesa do trabalhador. Graças a sua inteligência, perspicácia e dotes de orador, Brizola soube, como nenhum outro, propagar essas idéias, com o que foi conquistando a consciência da maioria dos riograndenses, elegendo-se deputado estadual, deputado federal, prefeito de Porto Alegre e governador do Estado. Lá no Palácio Piratini, sede do governo estadual, passou a viver num ambiente impregnado das idéias republicanas, positivistas, austeras, carregadas de nacionalismo, difundidas e postas em prática pelos antigos governadores Julio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas. O suicídio do presidente Getúlio Vargas e, principalmente, os termos tocantes da sua Carta Testamento constituíram acontecimentos decisivos para consolidar a opção nacionalista de Brizola. As denúncias contidas na Carta Testamento contra as pressões do capital financeiro externo, as fraudes nas importações, os lucros extraordinários das empresas estrangeiras, o aviltamento contínuo nos preços das exportações, as resistências opostas à Petrobrás e à Eletrobrás – tudo isso levou Brizola a convicção de que o progresso no pis era obstaculizado pelo que passou a denominar as “perdae internacionais”. No exílio, no continente europeu, Brizola conheceu a experiência dos governos socialistas, passou a conviver com suas próprias lideranças: Willy Brandt, François Mitterand, Mário Soares, Felipe Gonzáles, Leonel Jospin, Olav Palme. Assimilou o ideal socialista, após o que passou difundir a consigna de que “O trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo.” Foi na Europa que ele ampliou o conceito de exclusão que abarcaria não só aspecto social, mas a discriminação da mulher, do negro e do índio. Idéias que viria incorporar no programa do novo trabalhismo brasileiro. Não cabe, nessa solenidade, enumerar as grandes realizações dos governos Brizola, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Limito-me a salientar que ele era um patriota, um nacionalista que devotava um profundo amor a seu país e a seu povo. Como governante, tinha duas preocupações essenciais – as crianças e os despossuídos. Ele devotava um carinho todo especial para com as crianças, principalmente as de origem humilde. Para ele, a prioridade das prioridades do governo e da sociedade, seria a de proteger, como dizia, essas criaturinhas inocentes, assegurar-lhes alimentação, assistência médica, odontológica, proporcionar-lhes um mínimo de instrução, enfim prepara-las para o futuro incerto, impedir que elas fossem levadas ao desespero, à marginalidade. Foi com essa preocupação que em seu governo no Rio Grande do Sul, construiu mais de 6 mil escolas, com mais de 10 mil salas de aula, disseminadas por todo o Estado, com o que escolarizou praticamente todas as crianças em idade escolar. Graças a essa iniciativa, milhares de gaúchos, antes ameaçados de permanecer no interior, sem terra para trabalhar, vegetando em minifúndios, puderam deslocar-se pelo Brasil afora, alargando as fronteiras agrícolas do país. O amor pelas crianças e a preocupação pela educação levou-o, nos períodos em que governou o Rio de Janeiro, a conceber com Darcy Ribeiro a idéia dos Cieps, instalados em prédios projetados pela genialidade de Niemeyer, os quais foram concretizados, 100 deles, no primeiro governo, através da Faperj, sob a direção de Márcia Viana, e, no segundo, mais de 400, através de uma Secretária Especial, comandada por Tatiana Memória. Depois de ter vivido 15 anos no exílio, chegando da Europa, Brizola ficou extremamente chocado ao verificar como nosso pais estava empobrecido, a população marginalizada, sem possibilidade de organizar-se, sem saber como encaminhar suas demandas, sem acesso aos órgãos governamentais, contidos pela repressão da ditadura militar. Em razão disso, um dos primeiros atos de seu governo foi mandar abrir o amplo salão nobre do Palácio Guanabara, construído para as festas da realeza, para, nele, receber a população em geral, sem necessidade de audiência prévia. Lá instalou em dez mesas, igual número de assessores com a incumbência de ouvir e anotar os pleitos de todos quanto acorriam ao governo, encaminhando-os aos órgãos competentes para darem solução. Milhares de homens e mulheres do povo, que nunca se aventuraram e aproximar-se de um palácio, passaram a ser recebidos e tratados com dignidade. Brizola cumpria sua máxima: “Existimos para dar voz aos que não têm voz”. Brizola assimilou a idéia republicana, castilhista, da importância do estado democrático para implantar uma política de justiça social. Isso sem desconsiderar as diversas formas de organização da sociedade, mas sabendo que, entre elas, as que exercem maior influência são as que abrigam os poderosos, os donos do capital, por isso mesmo nunca poderiam construir os melhores instrumentos para priorizar, defender a causa dos despossuídos, dos marginalizados e dos excluídos. Para ele, enfraquecer, reduzir a ação do Estado significava abrir caminho para o domínio absoluto das leis do mercado, que, em última instância, é a lei do mais forte. Para ele, só o Estado é que poderia dispor de instrumentos efetivos para por em prática uma política de justiça social. Não desconhecia que sempre haveria risco de que o poder do Estado viesse a ser assumido por ditadores, ou que passasse a ser controlado pelos detentores da riqueza , pelos defensores do capital, mas para evitar que isso viesse a ocorrer, Brizola buscava despertar a consciência da maioria da população, para que viesse eleger os candidatos comprometidos com sua causa. Essa foi a grande luta de Brizola – conscientizar a população para que ela própria viesse assumir os seus destinos. Infelizmente, ele não pôde realizar seu grande sonho, chegar a presidência da República com o apoio da população trabalhadora. Para mim, no entanto, a perda maior foi do povo brasileiro por não ter tido a felicidade de ser governado por um patriota que, certamente, mudaria os rumos desse país. Minhas amigas, meus amigos: A ausência de Brizola é tanto mais sentida, quando se verifica que o PT e o governo Lula, hoje, representam o pior desserviço ao futuro da esquerda no Brasil, e às nossas esperanças de um dia ver o nosso país ser dirigido por um governo popular e socialista. Felizmente, o que nos alenta, ante essa experiência malograda, é saber que Brizola nos deixou um legado de idéias, de luta, de coerência e um Partido que, a despeito de tudo, não só sobrevive como se afirma, ideologicamente, empunhando a bandeira do trabalhismo socialista. Discurso, no auditório da Fundação Darcy Ribeiro em 26.10.2004 ALGUMAS DECISÕES CORAJOSAS DE BRIZOLA Brizola foi protagonista de muitas decisões corajosas. A principal delas foi a mobilização popular denominada a “campanha da legalidade”, que barrou a tentativa dos ministros militares de impedirem a posse de João Goulart na presidência da República, quando da renúncia de Jânio Quadros. Trata-se de um acontecimento histórico relatado, pormenorizadamente, por muitos autores. Mas há outras decisões dignas de registro. A encampação da filial da Bond and Share Brizola não tinha a intenção, no início de seu governo, de decretar encampação. O relatório da comissão de tombamento físico e contábil da concessionária dos serviços de energia elétrica, filial da Bond and Share, foram entregue em 30 de maio de 1958, portando no ano anterior à posse de Brizola como governador. Sentindo que o Estado, notadamente Porto Alegre, estava contido em seu desenvolvimento por falta de energia elétrica, Brizola procurou negociar uma solução tripartite, em que o governo estadual, a antiga concessionária e empresários privados teriam participação igualitária no capital de uma companhia que receberia a nova concessão dos serviços. Essa tentativa não prosperou, a antiga concessionária conversava mas não decidia. Numa oportunidade, combinou-se uma reunião com a participação do governo federal, do Embaixador dops Estados Unidos e o Brizola que se negou a continuar participando, quando soube que estava presente um representante da empresa estrangeira. Vim para tratar de assuntos do estado, não negociar com uma empresa privada, foi o comentário de Brizola. Depois disso, Brizola foi informar-se sobre o relatório conclusivo do tombamento físico-contábil, apresentado pela comissão designada pelo então Ministro da Agricultura, Mário Menegheti, no governo Juscelino, em data de 10 de setembro de 1957, isso na época em que o governador do Estado era Ildo Menegheti, irmão do Ministro. Eu fiz parte da comissão, por convite do então presidente chefe do serviço do Ministério da Agricultura, engenheiro Abel Pereira dos Santos, dela participavam, ainda, um contador do mesmo Ministério, Wilson Goldschmidt; dois engenheiros do Estado, Homero Dias e Pedro Drügg, altamente conceituados, e o contador da CEE, Urcelino Silva. Na primeira reunião, o presidente da concessionária instalou-nos num amplo salão uma grande mesa de centro, com todas as paredes cobertas por enormes livros, registrando a inteira vida da empresa. Ele nos apontou os livros, dizendo que nós poderíamos ficar a vontade, tudo o que precisávamos estava neles registrado. A Comissão ficou estarrecida, e certamente, como as oito anteriores, iria declarar a lisura dos registros, limitando-se ao tombamento físico, contagem de postes, transformadores e demais instalações. Ora, eu era o auditor contábil do Estado, professor titular da URGS, não iria me deixar levar pelo estratagema da concessionária de tornar inviável um exame mais profundo de suas contas. Procurei o dr. Noé, relatei o acontecido e lhe fiz sugestões. Ele deveria conseguir que o Governador me colocasse à disposição da comissão, em tempo integral, também que me cedesse instalações adequadas, auxiliares, secretário e datilógrafo. Eu permaneceria trabalhando em tempo integral, porque os demais membros da comissão, por manterem seus compromissos funcionais, só poderiam comparecer às reuniões semanais. Feito isso, passei a requisitar os livros contábeis da concessionária, desde o primeiro livro “Diário”, de abertura de escrita e início da construção das usinas e, à medida que concluísse o exame de cada um, solicitava a entrega dos livros correspondentes ao ano seguinte, e assim por diante. A legislação da época assegurava um rendimento fixo de 10% anual sobre o capital investido, avaliado pelo lado ativo, o qual é realizado com o uso do capital social e capital de terceiros. Para dar cumprimento ao dispositivo de remuneração fixa, alei estabelecida que se, no balanço anual, fosse verificado um lucro inferior aos 10%, a tarifa no ano seguinte seria elevada para restabelecer o limite da lei, isto é, para recuperar o ganho inferior ao limite do ano anterior. Por outro lado, a lei disciplinava que, se o lucro fosse superior ao limite legal, o excesso deveria ser reduzido do montante de capital investido, objeto de remuneração. Pelo exame de balanços, registrados nos livros da concessionária, verificou-se que, em quase todos os anos, ela havia obtido um ganho superior ao limite legal, de sorte que o capital investido, com direito à remuneração, foi sendo, paulatinamente, reduzido, até tornar-se negativo. No caso da retomada do serviço por extinção do prazo de concessão, a concessionária deveria ser indenizada pelo montante do capital investido, mas como esse capital era negativo, nada lhe seria devido na retomada dos serviços, tudo de acordo com a conclusão do relatório. Cópias do relatório, abrangendo 4 volumes, foram entregues ao Ministro da Agricultura, ao governador Menegheti, e à CEEE, - eu mantenho em meu poder uma das cópias. Não obstantes as conclusões do relatório, nenhuma providência foi tomada, quer pelo governo do Estado, quer pelo governo federal. Mas os resultados do tombamento vieram a público, através de artigos no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, fato que causou enorme repercussão, a Câmara dos Deputados constituiu comissaõ de inquérito, onde fui ouvido. Depois de convencer-se de que seus esforços para uma solução negociada não encontraram a menor receptividade, Brizola chamou-me, eu era chefe da Assessoria Econômica do Gabinete de Administração e Planejamento, diretamente subordinado ao governador, para que eu lhe desse todas as informações sobre as conclusões do tombamento. Ciente do resultado do tombamento, Brizola decidiu-se pela encampação. Assessorado pelo Procurador do Estado, Floriano d’Avila, Brizola baixou o decreto encampando a companhia, solicitando e obtendo na justiça a retomada dos serviços, mediante o depósito simbólico de um cruzeiro; tudo isso, antes que a concessionária pudesse acionar o governo federal e embaixadas. Ao retomar o controle dos serviços, a primeira providência do governo estadual foi reduzir em 10% o valor das tarifas até então cobradas. Depois dessa medida, o governo do estado pôde dar início ao programa de expansão dos serviços de energia elétrica, construindo, entre outras, a hidroelétrica de Jacuí, a mais importante, e as termoelétricas de Charqueada, e a de Alegrete, pôs em funcionamento a termoelétrica de Candiota, elevando a potência de pouco mais de 20 mil para cerca de 400 mil kva. Grupos dos 11 e frente de mobilização popular Brizola considerava tímida a atuação da bancada trabalhista na Câmara Federal. Por isso, decidiu com os deputados e correntes de esquerda, constituir a Frente de Mobilização Popular e passou a utilizar a rádio Mayrink Veiga para suas palestras semanais. Sentindo a necessidade de maior mobilização popular, através dos chamados “grupos dos onze”. Foi, inegavelmente, uma idéia vitoriosa, formaram-se cerca de uma centena de milhar de grupos, por todo país. Embora muitos considerassem uma mobilização militar, a idéia de Brizola era a mobilização popular, formar uma grande corrente de opinião capaz de dar sustentação às reformas, principalmente a reforma agrária e a contenção do que chamava “processo espoliativo” de nossa economia. Brizola deixava antever que essa mobilização, através dos grupos de onze, teriam papel preponderante para o controle do PTB e fortalecê-lo ideologicamente. Havia um comitê executivo encarregado de dar organicidade aos grupos, instalado em um apartamento na Av. N. S. de Copacabana, no Rio, onde estavam arquivadas as atas da constituição dos milhares de grupos, sua distribuição geográfica. Estávamos preparando as primeiras reuniões regionais, estaduais, culminando em uma convenção nacional. Todo esse projeto foi paralisado com o golpe de 1964. O local foi invadido e destruído. Felizmente, eu e Lélio Carvalho, que faziámos parte do comitê executivo, na noite do dia 1º de abril, retiramos, dentro de cinco malas, todas as atas de constituição dos grupos, bem como o respectivo fichário. Se esse material não fosse retirado, teria dado instrumento para que os militares pudessem envolver, em IPM, milhares e milhares de pessoas pelo Brasil afora. O exílio. A expulsão e o asilo nos Estados Unidos Nos primeiros tempos de exílio no Uruguai, Brizola tentou organizar um levante popular, armado, para opor-se ao regime ditatorial. Com o insucesso da tentativa de uma guerrilha em Caparaó, das dificuldades de arregimentação dos pretensos combatentes treinados em Cuba, da aventura do cel. Jeferson Cardim Osório, levando alguns companheiros a invadir o território brasileiro, de tudo isso resultou que o governo uruguaio decidisse internar Brizola na praia balneária de Atlântida, distante cerca de 100km de Montevidéu. Lá, ele teve que instalar-se, isolado da família – a esposa Neusa permaneceu na capital uruguaia, onde os filhos estavam estudando. Fui convidado a acompanhá-lo, nos primeiros dias de internamento, em Atlântida onde ele ocupava um pequeno apartamento, modesto, apropriado para os dias quentes de verão, sem qualquer conforto para o inverno. Lá ele recebia companheiros do Brasil que conseguiam atravessar a fronteira em operação arriscada. Vinham mais para conversar sobre ação política, poucos aceitavam a idéia revanchista, não viam a menor condição objetiva ou subjetiva para uma ação militar. Lá permanecemos isolados, lendo, retidos em um pequeno balneário. Tempos depois, Brizola convenceu-me da inutilidade de sua obsessão em buscar uma revanche. Preocupado em conseguir renda para sustentar a família, decidiu vender a fazenda que Neusa herdara no Rio Grande, e investir no Uruguai. Disse-me que buscou a ocupação rural mais absorvente, capaz de fazer com que esquecesse um pouco as agruras da política. Estabeleceu-se como proprietário de uma granja de leite (tambeiro, segundo expressão gaúcha e uruguaia). Depois de dois anos nessa atividade, voltou para a pecuária de corte e engorda de novilhos, vendeu a granja de leite e adquiriu uma fazenda em Durazno, cerca de 300km de Montevidéu. Alguns anos depois, sem uma justificativa plausível, a não ser a decisão dos ditadores sul-americanos de afastar as lideranças mais expressivas na Ámerica Latina, inclusive com assassinatos, como ocorreu na Argentina, no Chile e na Bolívia, a ditadura brasileira exigiu do governo uruguaio a expulsão de Brizola. Com isso, a operação condor julgava ter aprisionado Brizola. Qualquer tentativa sua de viajar para o exterior teria que passar pela Argentina, Chile ou pelo Brasil, países que o deteriam. Mas Brizola surpreendeu a todos. Ele decidiu testar a política de direitos humanos do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. Procurou a embaixada norte-americana, em Montevidéu, solicitando asilo político. Depois de uma consulta, que chegou até o presidente norte-americano, o asilo foi concedido. Então, sob a proteção do governo daquele país, Brizola viajou para Nova York. Soube da notícia da expulsão no exterior, viajei para Nova York para visitá-lo. Durante vários dias o acompanhei em contatos com lideranças políticas, entre eles os assessores do secretário de estado Young, Brady Tyson, Ralph Delacava, os quais conseguiram que Brizola fosse recebido pelo próprio secretário. Com minha colaboração, Brizola elaborou notas do que diria ao secretário, sobre a situação do Brasil, enfatizando a idéia de que a abertura política em nosso país deveria ser, necessariamente, procedida de uma anistia geral. 4. A tentativa de reorganização do PTB e a criação do PDT Brizola trabalhou intensamente para reorganizar o PTB, partido a que sempre estivera filiado. No Rio e no Rio Grande, não houve dificuldades para estruturá-lo, mas Brizola buscava organizá-lo em São Paulo, para onde viajou por diversas vezes. Na primeira viagem foi de visitas – aos jornais, e a algumas personalidades, entre outros, Don Evaristo Arns, Franco Montoro, Euzébio Rocha, Lula. Eu o acompanhei na maioria das visitas, inclusive ao Lula. Esse primeiro encontro com Lula, de que fui testemunha, não foi nada amistoso. Chegamos à sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Lula, nos aguardou sentado em sua mesa de trabalho; quando Brizola falou nas tradições trabalhistas, em Getúlio, Lula o interrompeu, dizendo, “Getúlio ferrou o trabalhador”. A partir daí, o ambiente foi constrangedor, Brizola o contradisse em seguida nos retiramos. Lula não teve a gentileza de nos acompanhar até a saída, permaneceu sentado em sua mesa. Brizola encontrou-se com Franco Montoro, numa fazenda de Paulo de Tarso, no interior de São Paulo, onde acertaram a entrada deles no PTB. Entusiasmado com os entendimentos, Montoro comentou comigo – vamos unir no Brasil as duas internacionais, a democrata cristã e a socialista. Dias Depois Montoro recuou da iniciativa, ao que sabemos, por ter obtido de Ulisses Guimarães o compromisso de fazê-lo candidato a governador de São Paulo, caso se mantivesse no PMDF. Brizola procurou Tancredo Neves que concordava em participar do projeto de reconstrução do PTB, mas desejava fazê-lo com a companhia de Chagas Freitas, fato que impossibilitou a continuidade dos entendimentos. Em outra oportunidade, Brizola foi recebido em Santo André, numa grande Assembléia de trabalhadores. O Presidente do Sindicato local era um antigo trabalhista, Deputado Federal Benedito Monteiro. Brizola, que fez um discurso inflamado, impregnado de nacionalismo, foi ovacionado. No dia seguinte seria recebido em almoço por Jânio Quadros, em sua residência, em Guarujá. Sabendo do encontro, os dirigentes sindicais pediram-lhe para que não aceitasse o ingresso de Jânio no PTB. Depois do almoço, num pequeno auditório, Jânio foi dizendo – “Governador, depois que o senhor se livrou da companhia daquela senhora (referia-se a Ivete Vargas) me declaro disposto a ingressar em seu Partido, como soldado; amanhã vou a Araraquara, falar aos estudantes, gostaria de transmitir sua palavra aos jovens...”; Um pouco constrangido, Brizola falou sobre o Partido, ressaltou que o ingresso em uma organização partidária era um ato de consciência, etc. Deixava-lhe o programa dos estatutos do Partido para que ele pudesse refletir sobre a proposta trabalhista, a fim de que viesse assumir uma decisão definitiva. O esforço para reestruturar o PTB foi em vão; Brizola perderia a sigla do PTB, devido a uma manobra da falecida Deputada Ivete Vargas com o ostensivo apoio do Gal Golbery. Em verdade, ela e Golbery tiveram sua ação facilitada por um pequeno descuido dos companheiros que foram a Brasília dar entrada no pedido de registro da sigla PTB. Madrugaram, é verdade, antes que Ivete o fizesse, deram entrada no TSE na documentação necessária, mas não tiveram o cuidado de mandar publicar, também, os atos constitutivos no Diário Oficial da União. Orientada por seus advogados, Ivete encaminhou, rapidamente, os atos de constituição do seu PTB, para publicação, antes de encaminhar o pedido de registro no TSE. Ao julgar os pedidos, o TSE decidiu por preliminar, que a data de publicação era o elemento essencial para o obtenção do registro, por isso desconsiderou o pedido encaminhado pelos seguidores de Brizola. Em uma reunião que aguardava o resultado do julgamento no TSE, ao saber do resultado contrário às suas pretensões, Brizola chorou, rasgou a sigla do PTB, e anunciou a criação de novo Partido, que veria a ser organizada sobre a sigla PDT. A organização de um novo partido, sem a sigla carismática do PTB, além de ser uma tarefa dificílima, tinha a enfrentar toda a hostilidade tanto do governo discricionário, que apostava na sigla antiga do trabalhismo, nas mãos de Ivete Vargas, como do PMDB, que queria perpetuar-se como o único Partido de oposição. Tudo isso tornava extremamente penosa a tarefa de preencher os rigorosos requisitos exigidos pela legislação autoritária para que a organização obtivesse o registro definitivo no TSE. 5. A campanha do Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982 (Proconsult) A idéia de lançar Brizola a Governador no Rio de Janeiro, a primeira eleição direta após longos anos de ditadura, só seria concretizada depois de árdua luta. A lei exigia que cada partido deveria concorrer com candidatos próprios a Governador em, no mínimo, 9 estados da Federação. Mais: a candidatura em cada Estado deveria ser acompanhada pelo lançamento de, no mínimo, candidatos a prefeito em 30% dos municípios. Sem preencher essas exigências, o Partido estaria impedido de concorrer às eleições. Isso tudo num tempo em que as pessoas viviam desconfiadas, temerosas de envolver-se em atividade política. O PDT conseguiu organizar-se em 9 Estados, mas interessar candidatos não foi tarefa fácil, porque o único membro do Partido em condições de concorrer com alguma possibilidade de sucesso, era Brizola; nos demais Estados, somente companheiros muito fiéis é que decidiram aceitar uma candidatura, sem qualquer possibilidade eleitoral. Mesmo, no Rio de Janeiro, conseguir e manter as candidaturas a prefeito, foi tarefa dificultada pela ação do PMDB que governava o Estado, e que não admitia que Brizola viesse dificultar a vitória de seu candidato, Miro Teixeira.; Este já tinha um adversário forte, Sandra Cavalcanti, concorrendo pelo PTB, além de saber que o candidato governo militar, Moreira Franco, iria despontar com o auxílio federal. Detendo o controle das prefeituras, o PMDB pressionava os candidatos lançados pelo PDT, para que desistissem de concorrer. Foi uma luta desigual, sem fim, até no último dia de registro de candidatura, o PDT teve que encontrar e designar outro candidato, em substituição ao renunciante. Em verdade, a campanha de Brizola foi épica. No início aparecia com 3% nas pesquisas, não dispunha sequer de um carro de som, usava o de um candidato a Deputado Estadual, Quental. Brizola viajava pelo interior do Estado, entrava nas cidades e vilas, a população em sua maioria temerosa, amedrontada por anos de repressão, recolhia-se em suas casas, ficava olhando por uma fresta na porta ou na janela, mas em verdade , ouvindo seus discursos. Brizola usava o microfone e começava a falar, pausadamente: “povo de ... Aqui vos fala Leonel Brizola... candidato a governador do Rio de Janeiro...” e assim, ia pregando como um missionário. Darcy Ribeiro, candidato a vice-governador, empregou todas as suas energias para adquirir e construir um único caminhão de som, o Brizolão, que ficaria famoso não por suas dimensões, minúsculas ante os enormes trios elétricos dos demais candidatos, mas por ser o único, ornamento com carinho. A lei Falcão impedia o uso do horário gratuito para pronunciamento dos candidatos, só admitia a projeção da imagem e a leitura do currículo do candidato. Com Marta Alencar, escrevi o currículo, que foi lido por Hugo Carvana. Brizola estranhou que não tivéssemos submetido o texto para sua aprovação, mas assim fizemos porque temíamos que ele pudesse considerá-la muito laudatório; além disso, queríamos a leitura com sotaque carioca, e, para isso, ninguém melhor que Carvana. Penso que a manobra discricionária da lei Falcão favoreceu Brizola que tinha uma vida política muito mais rica do que a de seus adversários. Aos poucos, fomos sentindo que a campanha ganhava corpo, as pessoas estavam vencendo o medo, mas as pesquisas não registravam o crescimento, até que em fins de agosto, por descuido do programa, o “bruxo” Sanchez, responsável técnico pelo Jornal Nacional, simpatizante de Brizola, colocou na telinha da Globo, antes que pudesse ser manipulado, o resultado da última pesquisa que mostrava Brizola à frente dos demais candidatos. Sanchez foi dispensado mas graças a ele, daí em diante ninguém poderia esconder a realidade. O resultado das urnas confirmou as expectativas, Brizola fora vencedor. No entanto, o martírio de uma campanha desigual. No caminho de Brizola estava a Proconsult, empresa encarregada da apuração continuada de Moreira Franco, candidato do PDS, portanto do sistema militar. Um dos nossos técnicos em informática, Juarez Lins – o partido mantinha uma apuração paralela, mas com um só computador, portanto demorada – procurou-me para informar que o presidente da Proconsult, Arcádio, lhe dissera que Moreira iria ganhar as eleições, devido ao que denominava “diferencial delta”. Segundo ele, com a legislação exigia que o eleitor voltasse em lista completa, incluindo, sem exceção, os números dos candidatos a serem sufragados para os diversos cargos – governador, senador, deputado federal, deputado estadual e vereador – a população pouco letrada ou analfabeta, exatamente a maioria brizolista, teria errado no preenchimento das cédulas, anulado o voto. O número de votos anulados, o diferencial delta, é o que estava assegurando a vitória de Moreira. Pedi que ele marcasse um encontro com o Arcádio. Encontramo-nos num restaurante na orla marítima do Catete, onde ele foi dizendo-me – imagina, eu, jovem, pouco tempo formado, estando em condições de decidir quem deverá governar o Estado. Disse-me mais: se a diferença de votos entre um e outro candidato fosse grande, nada havia a fazer, mas no caso, ela é pequena, e o resultado depende de minha vontade. Sarcástico, acrescentou, poderia impor condições, como pleitear a Secretaria da Fazenda, a presidência do Banerj e, assim, foi falando. Surpreso, vendo todos os nossos esforços sendo anulados por uma manobra fraudulenta, perguntei-lhe quem, além dele, dispunha de elementos para alterar os resultados, respondendo-me que eram seus sócios, dois coronéis da reserva do Exército. Felizmente, a conversa não se prolongou, graças à chegada de um companheiro de Partido, Juca Franco. Imediatamente, procurei contato com Brizola, comunicando-lhe o ocorrido. Relatei-lhe, também, uma denúncia grave que, pouco antes, me trouxera um soldado da PM. Disse-me ele que estava fazendo parte de uma patrulha que guarnecia um dos locais onde estavam guardados as urnas de votação, na baixada Fluminense, quando viu chegar um esquadrão da PM, abrindo as portas e penetrando no local. A patrulha comunicou-se com o seu quartel e, depois de algum tempo de espera, recebeu a ordem para desocupar a área. Por certo, estavam violando as urnas e anulando votos. Brizola agiu rápido, decidiu convocar a imprensa internacional, oportunidade em que declarou considerar-se o governador eleito e que só a fraude poderia tirar a vitória. Ante a repercussão as declarações de Brizola, cuja vitória ganhara dimensão internacional, o TER deliberou convocar uma reunião em que deveriam comparecer a direção do PDT e os diretores da Proconsult. Brizola decidiu que eu, acompanhado por outro membro da direção, deveria comparecer em nome do Partido, mas o TER informou que só poderiam representar o Partido, seu Presidente, no caso Brizola, e seu Secretário Geral. Deparei-me com o tribunal pleno, Arcádio e os dois coronéis, diretores da empresa apuradora. Ele, Arcádio, fez uma exposição, recheada de citações técnicas, procurando demonstrar a complexidade do sistema de apuração, coisa que, para ele, fugia à compreensão dos leigos, e assim foi dissertando. Quando terminou sua exposição, usei da palavra, dizendo que tudo aquilo era uma coisa fantasmagórica, sem sentido, porque o ato de apuração do resultado de eleição se reduzia a uma simples operação aritmética, a mais simples dela, ou seja, a soma. Disse mais, que os partidos, - no caso em número cinco – tinham recebido cópias dos boletins de apuração da cada urna, e que só estaríamos tranqüilos se cada divulgação parcial de resultados fosse acompanhada da informação dos números das urnas a que se referia, o que não estava sendo feito. Os membros do TER retiraram-se e, prontamente, decidiram cancelar o contrato com a Proconsult, conferindo essa missão ao SERPRO. Brizola estranhou por ser uma repartição federal, mas tranqüilizei-o, informando que o responsável pela apuração seria um técnico, filho de ex-militar cassado, meu colega de Colégio Militar, pessoa isenta, incapaz de praticar uma fraude. O resultado final confirmou a vitória de Brizola.

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