O COLUNISTA DIZ...

Carlos Michiles

Ph. D em Ciência Politica pela University of Manchester, England. Consultor e funcionário do CNPq. Nasceu em Manaus - AM. Oriundo dos anos 70 da geração iracunda da Universidade de Brasília, UnB.

Juruna, urucum e seu gravador

O grande legado deixado pelo índio xavante Juruna é sua coragem em inovar e encarar o peso da hegemonia da cultura não indígena. Esse legado continua a se espalhar pelos seus descendentes, como é o caso da própria imagem do Juruna sobre seu neto Rafael Weree, presidente nacional do Movimento Indígena do PDT (MOVI-PDT).

Como seu avô, Rafael é xavante, mas também um antropólogo. O que já revela certo avanço na trilha aberta pelo seu ancestral. De certa maneira, essa luta saiu de sua idade infantil para entrar na idade da razão e da consciência de serem seus próprios protagonistas. Como seu herdeiro, seu neto se tornou líder indígena ligado ao partido.

Juruna continua vivo. Sua obra xavante, iniciada lá atrás logo depois do fim do regime militar, prossegue permitindo uma organização a partir de suas ideias indígenas. Isso assegura sua identidade antropológica e garante a diversidade da civilização moderna. O curioso dessa trajetória é o abrigo e a proteção do lastro histórico do Trabalhismo brasileiro.

Não à toa que isso ocorreu. Afinal, Leonel Brizola teve como uma de suas primeiras atitudes organizar esse movimento com a incorporação em seu ideário de princípios, representado pela Carta de Lisboa, papel histórico que índios, negros e mulheres deveriam ocupar na formação do novo mundo próspero e democrático que imaginávamos.

Juruna, índio xavante, empunhando seu gravador para registrar as promessas não cumpridas dos brancos, senhores do poder, junto com seu povo pintado de urucum e genipapo e preparado para a guerra ou movimentos de agitação urbana contra a Funai, histórica descumpridora do seu papel de proteger a cultura dos povos originários.

Juruna e seus descendentes eram seis milhões no inicio do Brasil. Atualmente, devem ser em torno de 300 mil sobreviventes. Os homens civilizados  se converteram nos antropófagos da cultura primordial das origens brasileiras.

Na figura de Juruna, o simbolismo representa o valor dos remanescentes que tiveram o destino e a sorte de atravessar 500 anos, vencendo guerras de extermínio, contaminação das pestes, gripes e prostituição. Não é raro, em sua história, verificar o drama do roubo de seus filhos e de suas mulheres, além de sofrerem da doutrinação dos missionários e da manipulação política dos segmentos burocráticos que paternalizam sua relação de preservação da cultura para tirarem proveito político eleitoral.

O desafio que se coloca diante dessa cultura da sobrevivência ainda é a libertação da tutela do ouro “europeizador”, “cristianizador” ou civilizatório para que se tornem o que são de verdade: índios . Apenas isso.  Ser a expressão de sua cultura, hábitos, valores e tradições para que o mundo aprenda a conviver com a rica pluralidade dos diferentes e o desafio da tolerância multi cultural.

 Neste sentido, gestos como de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, que chamaram Juruna para se candidatar e se tornar o primeiro índio deputado federal, tem um significado marcante na história política dos índios brasileiros. Com certeza, o resultado deste evento da história aumentou a consciência e o apoio das populações urbanas brasileiras, inclusive da imprensa, que vem ampliando o respeito e a tolerância com essa população ancestral de nossa nação.

Outra vantagem de conviver com esses povos, com sua diversidade de fazer a vida se tornar uma vida que vale a pena viver, é conhecer os ritos indígenas, atos que fazem dessa cultura um exemplo de alegria ao festejar a vida com seus valores e modo de convívio humano.

Essa lição temos que aprender com os xavantes, pois somos seus descendentes, como também dos negros, avassalados que não podem mais continuar sendo matéria-prima para ser consumido pela produção utilitarista dos grupos e elites econômicos voltados para seus lucros. Como lembrava Darcy em um de seus últimos artigos: “exportar gente, queimar gente, exportar açúcar  para adoçar a boca dos europeus ou ouro para enriquecê-los.”

O triste é que ainda nos encontramos nesse dilema, mas muito já foi feito. É preciso fazer muito ainda. Essa é uma questão da nossa tribo “brasilis”.

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