O COLUNISTA DIZ...

Everton Gomes

Vice-presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini no Rio de Janeiro e mestre em Ciência Política.

Que caminho trilhar com Ciro Gomes?

Voltava do trabalho, cansado. Como meu carro me deixou, mais uma vez, na mão, peguei um táxi no centro do Rio de Janeiro até minha casa, na Ilha do Governador.

Durante os cerca de 30 minutos de trajeto, tive a oportunidade de bater um bom papo com a motorista, dona Zoé, que, de forma cordial, ofereceu-me um copo d’água e disse que o táxi dela não deixava nada a desejar em relação à UBER e que eu poderia pedir tudo que tem naquele outro meio de transporte. Achei interessante e, como sempre faço, saí a falar. Ou tentar, como você virá a seguir.

Trafegávamos num dos trechos recém-inaugurados do porto do Rio e dona Zoé comenta: “Este lugar ficou muito bonito; uma pena já saber que daqui a pouco volta a ser abandonado”.

Antes de eu terminar “é uma lástima se isso ocorrer”, ela insistiu: “Fique certo que com o novo prefeito, que é de outro partido, isso aqui não vai durar nem um ano!”.

Meu cansaço começou diminuir e falei sobre o fato de que, no Brasil, os políticos insistem em não dar continuidade ao que deu certo; que não existe política de Estado (no máximo temos projetos de governo); usei como exemplo o projeto dos CIEPs, que foi uma das grandes máximas desta realidade brasileira: projeto revolucionário em educação, que teve nos governo que se seguiram ao do Brizola seus algozes. Um deles hoje figurando aí no governo Temer – o famoso Moreira “Gato Angorá” Franco.

Aí, foi a vez dela: “Veja só, meu jovem, tenho idade pra ser sua mãe, talvez sua avó. Eu assisto a política há muitos anos e não vejo mudanças. Vejo um monte de gente falando de esquerda, direita, bolsa disto, daquilo, fulano e beltrano, mas sabe de verdade o que desejo? Eu quero é saber quem vai trazer soluções pro meu dia a dia. Tô cansada sabe? Quero acreditar que o prefeito vai melhorar o sistema de transporte, porque não aguento mais ficar parada em tanto engarrafamento; quero chegar do trabalho e ver minha família, ficar um pouquinho mais com eles. Quero poder namorar com meu velho que já ta lá com uma idade e chega em casa todo estropiado nesta cidade ingrata”.

E sem trocar de marcha, minha motorista prosseguiu: “Eu não entendo o que é esquerda e direita; mas sei quem faz bem pro povo. Você falou aí de um – o Brizola. Mas o que fizeram com o “homi”? A Globo não parou de falar mal dele até ele morrer. E como você mesmo disse, tudo que ele fez os outros destruíram. E aí? Dizem que o Brizola era da esquerda. Eu sinceramente não sei. Mas sei que ele lutava por nós; pelos que estão embaixo. Não quero ninguém que faça pelos da direita e nem da esquerda. Tudo político. A maioria safado. Quero alguém que faça pelos que estão embaixo. A briga é dos que são de cima contra os que são de baixo. Eu sou de baixo e quero saber quem vai fazer um pouquinho aqui na cidade pra melhorar minha vida”.

Um tanto espantado com sua posição, mais uma vez provoquei, “mas como assim dona Zoé? Então pelo que vejo a senhora é mais de esquerda. E ela novamente riu e disse: “Meu filho, já lhe disse que sou de esquerda não. Isso é coisa de quem sabe das coisas. Eu sou é do povo; e o povo só sabe o que é bom ou ruim. Se é feito por alguém de esquerda ou de direita pra gente não tem muita importância”.

“Então, dona Zoé, vejo que a senhora é uma pragmática: quer que sejam feitas políticas que impactem na sua vida, não é isto? Ela responde, reduzindo a velocidade do veículo: “É isto! Quem faz, se é com a mão esquerda, direita ou com o pé pra mim tanto faz”.

Comecei a rir, ela continuou: “Outra coisa… Vejo também um monte de político falando de coisas que não tem nada a ver com a vida da gente. Eu confio mais nos políticos que falam do nosso dia a dia. Como já disse prefiro um que resolva o trânsito; que faça uma creche melhor, porque aí sei que minha filha vai poder trabalhar e deixar minha netinha Gabriela sendo bem cuidada. Quero um postinho de saúde bom: sou uma trabalhadora e estes planos de saúde são tudo um absurdo, então se tivesse um postinho melhor perto de casa ou uma dessas clínicas da família, eu iria adorar”. E continuou: “Eu quero, meu filho, que a política resolva nossos problemas do dia a dia. Não quero político ladrão que só faz discurso de coisa longe e que a gente não vê”.

Aproveitando a brecha (ou a atenção dela com o sinal que iria abrir), falei: “Muito bem, dona Zoé, concordo plenamente com a senhora; e já tenho meu candidato a presidente: é o Ciro Gomes, um cara muito sério, trabalhador e que conhece bem o Brasil. Torço pra ele ser um bom presidente”.

Como percebi que estava diante de uma verdadeira formadora de opinião, entendi que não deveria ficar ali incógnito: “Vou confessar pra senhora uma coisa: eu o conheço de pertinho – sou do PDT do Brizola; e, por isto, comecei a falar em política com a senhora logo que vi que a senhora gostava de falar sobre os problemas da cidade”.

Dona Zoé abre um sorriso, “conhece o Ciro é?”, diante de minha afirmativa, ela passa o seu recado: “Que bom! Então não deixe de dizer pra ele que ele tem que resolver as coisas do dia a dia; que precisa falar com as pessoas e saber o que elas querem de verdade. Ele precisa melhorar as coisas que funcionam perto das pessoas, e precisa falar menos disto aí de direita e esquerda. Manda ele falar pros debaixo. Acho que se ele fizer isso ele ganha a eleição. Eu gosto dele, acho que tem jeito de presidente”.

Enquanto eu pensava “que pena, já estamos chegando”, ela prosseguia: “Tomara que ele ganhe; até porque é uma cara mais nova e precisamos renovar. Já votei num monte que taí. Pode dizer pra ele que a Zoé desta vez vai votar nele só por causa de você. Pelo que vi é um bom rapaz e muito sonhador. É disto que estamos precisando neste “brasilzão”. Precisamos de gente que queira ir pra frente , que queira defender os debaixo”. E só terminou quando desci do táxi e me despedi, carinhosamente, de dona Zoé.

Este diálogo (ou esta exposição de motivos?) despertou em mim uma pergunta – que percebo latente em quase todos encontros pedetistas que participo: para onde temos que levar o Ciro?

Se for pelas lições da taxista Zoé (veio à minha lembrança a “taxiata” que levou o governador Brizola, à Alerj, para sua diplomação), temos que levar para um caminho diferente do dilema direita x esquerda; e que aponte soluções para o Brasil, atendendo uma mudança radical nas relações urbanas.

Ou trocando em miúdos: que faça aquilo que os de baixo precisam, para que possam trabalhar, descansar, namorar e serem felizes bem pertinho das suas casas e famílias.

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